sábado, 18 de março de 2017

Impressões: O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro


O ano está sendo lento para leituras, mas a qualidade está proporcional à vagareza, então é com muita alegria e SATISFAÇÃO que escrevo sobre esta maravilha chamada O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro.



Uma terra marcada por guerras recentes e amaldiçoada por uma misteriosa névoa do esquecimento. Uma população desnorteada diante de ameaças múltiplas. Um casal que parte numa jornada em busca do filho e no caminho terá seu amor posto à prova — será nosso sentimento forte o bastante quando já não há reminiscências da história que nos une? Épico arturiano, o primeiro romance de Kazuo Ishiguro em uma década envereda pela fantasia e se aproxima do universo de George R.R. Martin e Tolkien, comprovando a capacidade do autor de se reinventar a cada obra. Entre a aventura fantástica e o lirismo, O gigante enterrado fala de alguns dos temas mais caros à humanidade: o amor, a guerra e a memória.


A sinopse resume bem a premissa do livro, embora seja uma patifaria isso de fazer alusão a Tolkien e Martin. Pegadinha de marqueteiro com altíssimo potencial de decepcionar o leitor que compra por conta dessa suposta similaridade, bem como o adjetivo de "épico arturiano". Malandragens de lado, a história segue um casal de velhinhos, Axl e Beatrice, numa viagem em busca de melhores condições para viver, na aldeia do filho.

A narrativa não é linear; volta e meia o texto muda para uma cena do passado dos personagens, ou para recontar o presente de uma perspectiva diferente. A princípio estranhei a obra, pois tudo era desconectado da narrativa principal, mas quanto mais a leitura avançava, mas sentia que as cenas e principalmente o recurso literário iam se adequando. Próximo ao final eu fiquei perplexo em perceber que o tema principal do livro, a importância da memória na psique humana e coletiva, estava retratada também na maneira de contar a obra, fazendo o leitor exercitar sua própria memória ou cair na confusão que aflige os personagens do livro. A voz narrativa não é uniforme, e pode passar de primeira para terceira pessoa, dependendo da cena.

A escrita foi a única coisa que me deixou decepcionado, porém em pouquíssimos casos pontuais. No geral, a escrita tem uma leveza contemporânea que equilibra bem as descrições, narrações de ações e dilemas emocionais, sendo esse último o que é enfatizado com mais frequência. A minha estranheza foi de encontrar, principalmente no primeiro terço do livro, frases de extremo mal gosto. Isso acontece umas oito vezes durante o livro; é pouco, mas são frases tão atropeladas que causam uma espécie de cacofonia aguda impossível de deixar passar. Em todas as vezes que elas apareceram, eu acabei interrompendo a leitura por alguns minutos, principalmente por meu interesse no autor ser o elogiadíssimo trabalho dele na parte da linguagem. Confesso que, por esses casos surgirem tão mais no começo do livro, cogitei repensar minhas expectativas para a leitura. De qualquer modo, deixo aqui algumas das frases que marquei durante a leitura. Como pode-se observar, as frases de maneira alguma são longas e mesmo assim a quantidade de orações formam um entulho horrendo na composição, o que poderia ser facilmente melhorado com cortes e substituições básicas.

"Essa seria a imagem que Axl e Beatrice veriam logo abaixo quando pararam para recuperar o fôlego, enquanto desciam a encosta."

"Mais cedo naquele dia, antes de eles chegarem ao mosteiro, o garoto já os tinha deixado boquiabertos com a rapidez com que conseguia cavar a terra com duas pedras chatas que encontrara por acaso lá por perto."

"Quando esta minha febre passar, nós vamos subir essas colinas e eu aposto que você vai descobrir que o próprio céu estará te sussurrando que caminho seguir até que cheguemos diante da toca da dragoa.”


Os personagens são poucos, mas incrivelmente bem caracterizados. As posições que cada um assume na trama são também facilitadores de conflitos, e a interação entre eles não deixa de ser instigante nem quando tudo parece que vai correr de maneira pacata e desinteressante. Abaixo deixo uma citação de diálogo entre o guerreiro e o menino.

“Se eu cair e você sobreviver, me prometa que vai carregar no coração um ódio infinito aos bretões.” “Como assim, guerreiro? A que bretões?” “A todos os bretões, jovem companheiro. Até mesmo aos que forem gentis com você.” “Não estou entendendo, guerreiro. Eu devo odiar até mesmo um bretão que divida o pão dele comigo? Ou que me salve de um inimigo, como fez há pouco o bom sir Gawain?” “Há bretões que atraem o nosso respeito e até mesmo o nosso amor, eu sei disso muito bem. Mas há coisas maiores pesando sobre nós agora do que o que cada um pode sentir um pelo outro. Foram bretões sob o comando de Arthur que chacinaram o nosso povo. Foram bretões que levaram a sua mãe e a minha. Nós temos o dever de odiar cada homem, mulher e criança que carregue o sangue deles. Então me prometa isso: se eu cair antes de transmitir a você as minhas habilidades, prometa que vai alimentar bem esse ódio no seu coração. E se algum dia ele bruxulear ou ameaçar morrer, proteja-o com cuidado até que a chama volte a arder com intensidade de novo. Você me promete isso, jovem Edwin?”

O que gostei:
Tudo.

O que não gostei:
As raras frases de formulação pobre.

Considerações finais:
O gigante enterrado foi uma leitura maravilhosa. Não oferece muitos aspectos tradicionais na proposta de literatura de fantasia, mas não deixa de ser uma jornada brilhante, comovente e edificadora. É possível perdoar um erro sem antes esquecê-lo? Leia a obra e decida. O que posso dizer com certeza é que eu nunca me esquecerei dessa leitura fantástica!


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domingo, 8 de janeiro de 2017

Impressões: A Menina - Uma vida à sombra de Roman Polanski, de Samantha Geimer



The Girl: A Life in the Shadow of Roman Polanski
Indo muito além das manchetes, A menina: uma vida à sombra de Roman Polanski revela uma garota de treze anos que era ao mesmo tempo muito mais esperta do que sua idade e, mesmo assim, terrivelmente vulnerável e ingênua. Mas, ao contar sua história completa pela primeira vez, Samantha reclama sua identidade, e indelevelmente prova que é possível ir de vítima a sobrevivente, da confusão à certeza, da vergonha à força.

A menina é um livro cheio de altos e baixos, com viradas e piruetas entre eles. Comecei porque estava afim de ler uma não-ficção, e como era o que eu tinha à mão, acabei lendo unicamente para não ter que gastar dinheiro comprando uma biografia de alguém que conheço. Digo isso porque não conhecia a autora, nem sequer conhecia o pivô de tudo, Roman Polanski. Mas era o que tinha para hoje, então li. 

O livro conta a versão da autora sobre partes da sua vida envolvendo o caso de estupro que sofreu na mão do diretor de cinema e pormenores não tão relacionados assim com o evento. Achei interessante o livro pela sua naturalidade narrativa, até mesmo no início, antes do relato do estupro, o que me fez lembrar que até a mais banal das histórias cotidianas pode ser interessante. O estilo de escrita é inexistente; de fato, a escrita é praticamente uma transcrição de discurso oral, quase vulgar. O aparecimento de recortes de jornal ou de documentos do processo no texto do livro destoam, mas isso não influencia muito na percepção do livro enquanto obra literária, muito pelo contrário. Por conta deles, o livro acaba sendo ainda menos literário (no que tange à arte), mas em nenhum momento achei que essa fosse a aspiração da autora. 

O destaque, na minha opinião, é o posicionamento da vítima sobre o crime de estupro. Fiquei chocado com o que li no livro, e após uma análise interna, entendi o porquê. De uns anos para cá, algumas pautas políticas acabaram norteando a produção de conteúdo de entretenimento, e o tema "estupro" foi levado junto com isso. Hoje em dia ele se tornou um tabu muito grande (na literatura, em especial, é até razão para revolta e textão no blog), e a leitura do livro me alertou para o fato de eu ter sido sugado para essa corrente de pensamento comportamento. Ver um caso (que aconteceu na vida real, ainda por cima) em que uma vítima de estupro não coloca o crime como a coisa execrável, repudiante e hedionda que normalmente eu vejo em 100% dos posts/artigos de opinião na internet que abordam o tema, teve o mesmo efeito de um soco na cara. Eu poderia vir aqui e dizer que o livro foi uma perda de tempo, enquanto leitura de lazer, mas essa libertação que ele me trouxe foi muito engrandecedora. Agora eu consigo pensar no tema com a complexidade que ele exige, saindo da bitolagem na qual eu me encontrava, rotulando representação de estupro como humanizado ou não, favorável ou não para o debate público sobre o tema, e outros tantos chavões que acabei repetindo quase que por osmose.

O livro é dispensável, não acho que alguém PRECISE ler, a não ser os fãs do diretor ou pessoas que tenham se interessado pelo caso que se arrastou na justiça americana por décadas. De uma forma ou outra, ainda é mais útil que certas bobagens aclamadas na literatura de fantasia que eu vinha admirando, desprezando ou querendo ler, mas que não passam de enlatados produzidos em massa seguindo as mesmas fórmulas estruturais. 



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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O pior ano das letras


Resolvi abandonar Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, porque a edição que peguei para ler estava horrorosa, e quando fui atualizar a leitura no goodreads, percebi o quão ruim foi esse ano para as minhas leituras.Somando isso ao aporrinhamento do goodreads apontando na minha cara que estou 10 livros atrasado na meta de leitura de 2016 (que nem é alta), decidi que era hora de fazer um post de resmungo combinado com desistências e uma pitada de esperança em livros melhores daqui para frente. 

Primeiro, vamos dar nome aos bois. O que gostei, não gostei e me deixou em cima do muro:


Já dá para ver que os bons foram raridade, e vale ressaltar que, dos bons, o único que salvou a pátria mesmo foi O Apanhador no Campo de Centeio.

Calma que desgraça pouca é bobagem: eu já tinha feito um post reclamando das leituras e não sei o que mais, e tinha finalizado ele com uma listinha promissora para ler e terminar o ano satisfeito. Pois bem, estou me isentando de qualquer obrigação de lê-los, a minha máxima agora vai ser VEJO A CAPA E A SINOPSE, SE GOSTAR, EU PEGO PARA LER. Serei drástico assim porque os livros abaixo (praticamente comprei ou baixei todos) eu acrescentei na lista de leitura devido a: estarem falando muito bem do autor/obra. Simplesmente isso. Eu estava indo pela cabeça dos outros. Minhas leituras em 2015 foram escolhidas muito mais da minha percepção, e acabou sendo um ano de leituras maravilhosas, ainda que a maioria fosse de autores novos ou de pouco reconhecimento. Pode ser que eu pegue algum livro abaixo para ler? Sim, mas será porque ele me despertou interesse; O LIVRO, NÃO O FULANINHO QUE VEM NA INTERNET HYPAR OS FAVORITINHOS DELE.




Agora estou calmo.
=3



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Impressões: O feiticeiro de Terramar, de Ursula Le Guin


O livro do post foi escolhido para que a resenha saísse logo na semana de lançamento, o que evidentemente não aconteceu. O motivo é simples: apesar de curto, o livro demandou muitos dias para que eu o concluísse, cheguei a pegar a versão em ebook da edição antiga para agilizar o passo no kindle, e mesmo assim tive muitos entraves para dar sequência à leitura. E olhe que numa comparação, achei a tradução antiga muito melhor, mais "saborosa", porém a fluidez simplesmente não veio. Estou falando de O feiticeiro de Terramar, da autora Ursula Le Guin.



Há quem diga que o feiticeiro mais poderoso de todos os tempos é um homem chamado Gavião. Este livro narra as aventuras de Ged, o menino que um dia se tornará essa lenda. 
Ainda pequeno, o pastor órfão de mãe descobriu seus poderes e foi para uma escola de magos. Porém, deslumbrado com tudo o que a magia podia lhe proporcionar, Ged foi logo dominado pelo orgulho e a impaciência e, sem querer, libertou um grande mal, um monstro assustador que o levou a uma cruzada mortal pelos mares solitários.

A sinopse é honesta, mas não inequívoca. Ao declarar certos eventos como prenúncio para uma aventura maior e cheia de emoções, de cara já suponho uma manipulação marqueteira, uma vez que há muito o que se ler até chegar à chamada "partida para resolver o problema do monstro assustador". O agravo: o que é lido antes desta cruzada de Ged é muito mais interessante que o que vem depois. Não quero continuar sendo negativo do início ao fim, então vou destacar uma qualidade que saltou aos meus olhos na leitura: a escrita!

"E como os seis irmãos de Duny eram vários anos mais velhos que ele e, um por um, deixaram a casa para irem trabalhar a terra ou navegar no mar ou trabalhar nas forjas de outras povoações do vale do Norte, não houve ninguém que criasse a criança com afeto. Fez-se bravio, desenvolvendo-se como erva daninha, até se tornar um rapaz alto e enérgico, barulhento e orgulhoso, cheio de vivacidade".

O feiticeiro de Terramar é um livro de fantasia direto, com uma concisão primorosa e uma beleza rara de escrita. A sintetização de ideias mostrada no parágrafo acima é tão acertada que dispensa qualquer flashback, memória contada ou conflito interno para definir o protagonista. Simplesmente diz quem é, e isso basta.

"Vivia na aldeia uma irmã da sua falecida mãe que fizera o necessário por ele enquanto bebê mas, tendo coisas suas com que se ocupar, não se importou mais com ele assim que o rapaz pôde cuidar de si próprio".

Uma frase condensou o que a gente vê por aí levar parágrafos, até capítulos, em alguns casos. Eis o talento invejável da autora. Amei ler o seu texto e me deslumbrei com a capacidade dela se expressar. Mas o fascínio ficou por aí.

Ged é um jovem com aptidão para magia que, insatisfeito com o treinamento proposto pelo seu sábio mestre, sai para ser aluno numa escola de magia. Os eventos e personagens alocados nessa porção do livro são interessantes, de maneira que a obra se mostra uma preciosa peça literária tanto quanto história de entretenimento. E nem se pode dizer o contrário dos personagens e eventos que aparecem depois, mas a condição de indiferença de Ged, por ter liberado a sombra - mas, principalmente, por consequência da sabedoria e dos poderes que adquiriu após se tornar um mago completo - monta uma parede que barra qualquer entusiasmo. As viagens são monótonas e as situações são anti-climáticas. Não porque não houve preocupação ou desleixo da autora, mas porque Ged sabia que não devia afetar o mundo. É como o manjado recurso de viagem no tempo tanto usado em ficção científica: o viajante não pode mudar eventos do passado ou vai causar problemas, mas algo muda e por isso a história permanece interessante. Aqui, Ged insiste em não causar problemas, e o que prende a leitura é tão somente o mistério da sombra, nada mais. Pelo menos, pode-se dizer que a conduta chata de Ged se encaixa de maneira perfeita no tema do livro, que carrega uma proposta sóbria, tão diferente da maioria das fantasias. Aliás, a magia de Terramar é claramente uma ciência, apesar de não deixar de ser magia:

"Nada tinha a ver com ilusão, mas apenas com verdadeira magia, a invocação de energias como a luz e o calor, e a força que atrai o íman, bem como as forças que o homem conhece como peso, forma, cor e som. Poderes reais, extraídos das imensas, incalculáveis energias do universo, que nenhum encantamento ou uso humano poderia alguma vez exaurir ou desequilibrar".

Nas descrições, senti emoções diversas. Em geral gostei, porque a escrita é boa, mas preciso ressaltar o incômodo da apresentação geográfica, que parece jogada livremente:

"Fundearam durante uma noite em Foz-do-Kember, o porto mais a norte da Ilha de Way, e na seguinte, numa pequena cidade à entrada da Baía de Felkway, passando no dia seguinte o cabo norte de O e entrando nos Estreitos de Ebavnor".

O cenário é sempre tratando assim, despejando nomes de ilhas, cidades, portos. Quase nada afeta realmente a narrativa, e todas se perdem ao virar de página. Recentemente fiz a mesma reclamação no post sobre As mentiras de Locke Lamora, que usa o mesmo recurso de construção de cenário ao mencionar bairros da cidade.

Não vou dispor em tópicos o que gostei e não gostei, até porque é mais fácil resumir em uma linha: gostei dos personagens, da escrita e das cenas; e não gostei do conjunto da história, de Ged e das passagens entre as cenas (que são basicamente as andanças/viagens marítimas e a maior parte do livro).

Mais alguns trechos ótimos que faço questão de destacar, abaixo.


"Nessa noite, e sempre daí em diante, ofereceu e deu a Gued amizade. Uma amizade firme e aberta que Gued não podia deixar de retribuir".

Mais uma vez, o poder de síntese que dispensa floreios e artimanhas de autores prolixos.

"(...) à medida que o poder real de um homem aumenta e se alarga o seu conhecimento, tanto mais se vai estreitando o caminho que lhe é possível seguir. Até que, finalmente, ele nada escolhe, mas faz apenas, e na sua totalidade, o que tem de fazer".

Resumiu a atitude do mago Ged, deixando o leitor com uma ótima extrapolação filosófica do texto, e reforçando a ausência do inesperado na história.

"Servos abriram portas e desviaram-se para o lado perante Gued e a dama, todos eles pálidos e frios osskilianos. Também a pele dela era clara, mas, ao contrário deles, falava bem a língua Hardic e mesmo, pareceu a Gued, com o sotaque de Gont. Mais tarde, nesse mesmo dia, ela levou-o perante o marido, Benderesk, Senhor da Terrenon. Com três vezes a sua idade, branco como um osso e como um osso magro, de olhar turvo, o Senhor Benderesk acolheu Gued com uma fria e severa cortesia, convidando-o a permanecer como hóspede durante o tempo que lhe aprouvesse. Depois pouco mais teve para dizer, nada perguntando a Gued das suas viagens ou do inimigo que o perseguira até ali".

Mais uma aula, com tanto dito em tão pouco. Uma escrita densa e admirável.

"Quase cedera, mas, por pouco, não chegara a ceder. Ele não aquiescera. E é muito difícil para o mal apoderar-se da alma que não aquiesce".

Uma frase que seria prato cheio para críticas, cuja beleza sobrepõe a necessidade de reformulações.

Considerações finais:
Um livro que enche os olhos a cada frase lida, mas que não impele ninguém a ler a que vem a seguir. O principal motivo que eu vejo para recomendá-lo, é o nome da autora.








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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Impressões: As mentiras de Locke Lamora, de Scott Lynch


Há uma semana, mais ou menos, eu li O corvo, do Edgar Allan Poe. Como quase todas as poesias que leio, não me afetou, e não farei post falando sobre ela (não tenho mesmo nada a falar). Assim sendo, pulo direto para as minhas impressões sobre o livro que li em seguida: As mentiras de Locke Lamora, do autor Scott Lynch. Capa, sinopse e o que achei logo abaixo.



O Espinho é uma figura lendária: um espadachim imbatível, um especialista em roubos vultosos, um fantasma que atravessa paredes. Metade da excêntrica cidade de Camorr acredita que ele seja um defensor dos pobres, enquanto o restante o considera apenas uma invencionice ridícula.
Franzino, azarado no amor e sem nenhuma habilidade com a espada, Locke Lamora é o homem por trás do fabuloso Espinho, cujas façanhas alcançaram uma fama indesejada. Ele de fato rouba dos ricos (de quem mais valeria a pena roubar?), mas os pobres não veem nem a cor do dinheiro conquistado com os golpes, que vai todo para os bolsos de Locke e de seus comparsas: os Nobres Vigaristas.
O único lar do astuto grupo é o submundo da antiquíssima Camorr, que começa a ser assolado por um misterioso assassino com poder de superar até mesmo o Espinho. Matando líderes de gangues, ele instaura uma guerra clandestina e ameaça mergulhar a cidade em um banho de sangue. Preso em uma armadilha sinistra, Locke e seus amigos terão sua lealdade e inteligência testadas ao máximo e precisarão lutar para sobreviver.


A sinopse é bem vaga (e como não ser, para um livro de 600 e tantas páginas?), mas não diz nenhuma inverdade. O livro suga o leitor para um espaço de máfia italiana adornada com luzes noturnas misteriosas, alquimia e construções ancestrais num momento de grande virada política, e para nos guiar ao longo de tudo, nos apresenta Locke Lamora, líder de um dos vários bandos criminosos da cidade de Camorr: os Nobres Vigaristas. Percorremos sua infância sofrida, o acolhimento na Igreja de Perelandro e sua trajetória como ladrão até assumir, já na idade adulta, a liderança do bando.

A narrativa é segmentada, contando com um interlúdio ao final de cada capítulo para mostrar um flashback ou dar uma informação extra, mas mantém a linearidade em todo o resto do livro. Como sou da geração que pegou o fenômeno LOST, não me incomodei com essa quebra, muito pelo contrário; é um recurso que me agrada demais (inclusive o uso quando escrevo), porém mesmo os não entusiasmados com essa estrutura conseguirão manter a leitura sem entraves, já que esses flashbacks são bem curtinhos. A narração é fluída  e os diálogos são cuidadosamente utilizados para informar enquanto injetam comicidade e tensão no andar da história. Informalidade é, sem sombra de dúvida, o principal traço da narração. O aspecto visual da narrativa fica bem claro nos trechos a seguir:

"Locke apoiou as costas na base do muro e uniu as mãos para formar um calço. Calo pousou um dos pés nesse estribo improvisado e pulou para cima, impulsionado pela força conjunta das próprias pernas e dos braços de Locke".

"Ela sacou uma chave que trazia pendurada em uma cordinha de seda no pulso direito e a inseriu na fechadura de prata acima da maçaneta de cristal ao mesmo tempo que pressionava com cuidado determinada placa de bronze decorativa dentro de um nicho na parede".

Os personagens são o motor da trama, e como eles se expressam pelos diálogos, não preciso me repetir em dizer que foram muito bem construídos a partir das falas. Eles se agrupam para representar diferentes núcleos sociais e pedaços de cenário, o que facilita a condição de "motor". Por exemplo, o Aliciador representa um bairro e um determinado período na linha do tempo, o Padre Correntes e Sabeta, outro lugar e tempo, Barsavi, a cidade baixa num tempo um pouco mais à frente, e por aí em diante. Essa configuração é excelente para levar o leitor junto, cada vez que a trama se move no tempo e espaço, principalmente em um romance tão longo e cheio de gente. Execução impecável!

A descrição que o autor usa, entretanto, merece uma ênfase aqui, devido à estranheza que causa em alguns momentos, até prejudicando o ritmo de leitura. Como a história inteira se passa dentro de uma cidade, acaba que bairros e referências geográficas tomam para si o papel de montar na cabeça do leitor uma imagem mental a partir de peças particulares, e nem sempre isso é feito de maneira coesa. O bairro de onde vem o personagem Pulga é um ótimo exemplo de criação de imagem para o cenário, e ironicamente é um lugar usado uma vez ou outra numa história de 600 páginas, enquanto tantos outros são citados diversas vezes sem representar coisa alguma. Atenção:

"No vão central dessa ponte, o Aliciador parou e olhou para o norte, para além das casas sem luz do Tranquilo, para além das águas envoltas em névoa do veloz Angevino, e fitou as chácaras sombreadas e os bulevares de pedra margeados de árvores das ilhas de Alcegrante, cuja opulência se espalhava aos pés das altíssimas Cinco Torres".

"Na outra ponta das Quedas do Moinho, os dois viraram em direção ao leste e atravessaram uma larga ponte baixa para entrar no bairro do Portão de Cenza, rota que a maior parte do tráfego terrestre em direção ao norte utilizava para deixar a cidade".

Das várias localidades e referências geográficas mencionadas nesses dois trechos, APENAS as Cinco Torres permanecem como elemento significativo no cenário da história. E o problema das descrições não se atêm à parte geográfica. Constantemente elas invadem a narração de uma cena e, dependendo do caso, podem ir de apenas um atraso no andamento para um completo desestímulo. Abaixo, um trecho descritivo de uma cena à mesa, que, apesar ter muita coisa que poderia ser podada, não interfere na leitura. Depois dele, um trecho em que a descrição invade a narração de uma cena de luta, e aí não tem jeito, a quebra de interesse na sequência é instantânea.

"Os bolinhos de frango estavam temperados com gengibre e lascas de laranja. O molho de vinho da salada de feijão aqueceu sua língua, a mostarda ardeu na sua garganta. Ele se pegou tomando goles do vinho para apagar cada fogo novo que se acendia".

"Outro borrão cor de prata se moveu no canto do campo de visão de Locke e uma nova dor irrompeu em seu peito como um botão de fogo a brotar ao redor de seu coração, queimando o próprio cerne de sua carne. Pareceu-lhe até sentir o cheiro da carne tostada e o ar em seus pulmões se aquecer até ficar escaldante como em uma fornalha. Ele gemeu, se contorceu, jogou a cabeça para trás e finalmente gritou".

É difícil dizer objetivamente qual foi o erro nessa última passagem, porque a maioria esmagadora dos romances de Fantasia segue esta mesma linha de exposição quando traz uma descrição em cena de ação. Talvez seja melhor o autor de literatura fantástica que está escrevendo uma cena de ação deixar um pouco de lado as referências da Fantasia e ir atrás de um Arthur Conan Doyle da vida, que faz um trabalho muito mais efetivo. Encerrando a minha consideração sobre as descrições, vou deixar a passagem do livro que considerei realmente INADMISSÍVEL. O narrador, em mais uma apresentação geográfica, volta-se para o leitor totalmente do nada ao encerrar sua explicação do local. Uma quebra bizarra e amadora da voz narrativa:

"Imaginem várias profundas galerias retangulares escavadas na horizontal até o fundo do penhasco e interligadas apenas por fora"

O que gostei:
- Linguagem fluída.
- Diálogos bem construídos.
- Personagens marcantes.
- Cenário interessante.
- Narrativa envolvente em uma história cativante.

O que não gostei:
- As descrições pecam em vários momentos.
- Após a resolução do grande problema no clímax, o livro se demora demais em uma cena de luta mano-a-mano extremamente prolongada.
- O excesso de nomes de bairros, ruas, praças e ilhas que não servem para nada.

Considerações finais:
As mentiras de Locke Lamora quebra um paradigma grande ao me fazer gostar tanto de uma fantasia tradicional, que exige mais que 500 páginas para montar cenário, personagens e trama integralmente e de forma natural. Valeu a pena ler, e indico a todos os que chegaram até aqui com  alguma dúvida.





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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Impressões: O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger


Minhas impressões sobre a obra mais célebre de J. D. Salinger, o polêmico O apanhador no campo de centeio. Capa, sinopse e minha reação a seguir.



Um garoto americano de 16 anos relata com suas próprias palavras as experiências que ele atravessa durante os tempos de escola e depois. Revela o que se passa em sua cabeça. O que será que um adolescente pensa sobre seus pais, professores e amigos?


Livro espetacular! Nem vou fazer comentários, pois não me sinto capaz para a tarefa, o livro é pura psicologia. Narrado em primeira pessoa, ele reproduz exatamente o que muita gente é (especialmente hoje em dia com a geração depressão) e que outros só são em alguns momentos da vida. Holden Caulfield é deprimido, insatisfeito, prepotente e covarde; covarde ao ponto de não virar um personagem revoltadinho que certamente estragaria a história, como esse tipinho sempre faz. Fico mesmo devendo uma análise melhor, mas não sei expressar em resenha todas as sacadas geniais que peguei (várias vezes) durante a leitura. Deixo abaixo alguns quotes que marquei no Kindle.


Depois que eu disse a ela que tinha um encontro marcado, não podia mesmo fazer droga nenhuma senão sair. Nem podia ficar por lá para ouvir o Ernie tocar alguma coisa minimamente decente. Mas não ia de jeito nenhum sentar numa mesa com a Lillian Simmons e com aquele cara da Marinha e morrer de chateação. Por isso saí. Mas fiquei danado quando apanhei meu sobretudo. As pessoas estão sempre atrapalhando a vida da gente.
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- Tá bom - eu disse. Era contra meus princípios e tudo, mas eu estava me sentindo tão deprimido que nem pensei. Esse é que é o problema. Quando a gente está se sentindo muito deprimido não consegue nem pensar.
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Mas morei com ele uns dois meses, apesar de toda a chatura, só porque ele assoviava bem pra burro. Por isso, tenho minhas dúvidas quanto aos chatos.
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O mais engraçado é que, na hora que a vi, me deu uma bruta vontade de casar com ela. Sou biruta. Nem ao menos gostava muito dela e, apesar disso, de repente, me senti como se estivesse apaixonado e quisesse casar com ela. Juro por Deus que sou biruta. Reconheço.




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sábado, 13 de agosto de 2016

Impressões: A velha casa na colina, de Fábio Barreto

A constância nos posts vai voltar, ao que parece, e nesta retomada trago mais um livro de autor brasileiro contemporâneo. Capa, sinopse e minhas impressões sobre A velha casa na colina, de  Fábio Barreto, logo abaixo.




Nick Pershin tinha a vida pela frente, com sonhos e ambições, mas, ainda na infância, decidiu bater à porta da velha casa na colina e viu tudo ruir conforme foi lançado num rodamoinho repleto de morte, tragédia e uma decisão irreversível a ser tomada. 



O livro é menor do que eu esperava. Na verdade, só agora que fui buscar a sinopse e capa na internet foi que li na descrição que é um conto. Provavelmente o meu desconhecimento só melhorou a experiência de leitura, afinal eu estava determinado a não ler mais contos até o fim do ano, e não saber o número de páginas (leio no kindle) me proporcionou terminar esta prazerosa história que passaria batida caso eu a colocasse na coleção de contos. Assim sendo, vou estruturar o post de modo a mesclar as observações que faço a romances com a brevidade dos comentários que faço a contos. Bom, chega de falar de mim, vamos à história! 

A sinopse é genérica e não representa o enredo, mas chama atenção e, bom, talvez seja isso que conte... Nick começa como uma criança comum, presencia um evento sobrenatural traumático e reaparece jovem adulto para dar prosseguimento à história como protagonista. Esse prosseguimento de narrativa é algo notável ao leitor com certa facilidade, pois os fatos (principalmente as reações das personagens aos eventos) são forçados a um nível teatral. Levando em conta que contos precisam de uma agilidade maior no andamento e atribuindo tais exageros comportamentais e psicológicos na parte sobrenatural da história, acaba que a "forçação de barra" é relevada e a leitura segue sem percalços.

A narrativa é bastante visual e não se perde em nenhum momento. É daqueles livros que não deixa o leitor se afastar com facilidade, tamanha a linearidade da sequência dos fatos narrados. Na parte descritiva há um soluço ou outro, mas nada de alarmante, como em:

"A peça de metal, no formato de cabeça de cavalo, segurava uma argola dourada e protegia a entrada, intocada há décadas. Ela era gigante, pois, por muito tempo, também foi utilizada como sanatório local."

O trecho inicia descrevendo uma aldrava bem amadoramente, mas é na segunda frase que fica esquisito. O "pois", por ser conjunção coordenada explicativa, deveria estabelecer uma causa ou justificativa, mas não existe tal coisa entre o prédio ser um sanatório e a porta ser gigante. São coisas pequenas como palavras soltas, e uma questão pertinente surge desses solavancos. No início do ebook é comentado que o autor mora nos Estados Unidos, e trabalha com roteiros; será que o livro foi escrito originalmente em inglês ou em português? Nada sobre isso é comentado. Me fiz essa pergunta especificamente ao chegar no trecho seguinte:

"Thomas tentou acalmar o filho, mas ele continuava a tagarelar sobre Clive ter sido engolido. Quando entendeu o cenário, praticamente..."

A palavra "cenário" não é costumeiramente usada como "situação" no Brasil (embora seja usado regularmente em ambiente de empresariado, workshops e coisas do tipo), mas é nos EUA. Fica a dúvida. Entretanto, como os exemplos mostram, são apenas escolhas de palavras específicas que trazem algum estranhamento, nada de pavoroso; qualquer leitor pode seguir até o fim e até passar batido por elas, nada disso vai fazer alguém desistir da leitura.

O único momento que achei menos divertido foi a cena do fantasma na ponte. Excetuando a tensão no clímax da história, A velha casa na colina é um livro tranquilo e não tenta dar sustos no leitor. No geral é uma história de suspense bem estruturada, com um pontual dramalhão sentimental neste ou naquele diálogo e enredo de fácil assimilação. Não vai muito além disso. 



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