segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Impressões: A última chave, de Camila Guerra

Na sequência, mais um post sobre livro escrito por uma brasileira contemporânea. Minhas impressões sobre A última chave, de Camila M. Guerra.


O que você faria se soubesse que pode viver em dois mundos?
Sofia mantém sua vida nas rédeas e está muito feliz sozinha. Até o dia em que encontra um livro intrigante que muda completamente a sua vida, envolvendo-a em uma série de sonhos estranhos.
Sem querer, ela passa a viver experiências muito intensas fora do corpo. Essas experiências trazem para sua vida um tufão, que bagunça seu auto-controle e, de quebra, traz-lhe uma indesejada e arrebatadora paixão e uma batalha incansável contra um inimigo feroz.
Sonho ou realidade? 
A realidade nos sonhos pode ser implacável e verdadeira…


Numa época cheia de magia e tecnologia imaginária permeando os livros de ficção, A última chave se destaca por ter uma essência inusitada. Mexendo com planos astrais, a autora entrou num campo que é comumente menosprezado para contar a história de Sofia. E antes de falar da moça, explico brevemente o menosprezo: a utilização de sonhos como artifício de roteiro é, na minha experiência pessoal, normalmente criticada e taxada como batida e sem graça na interação internética, principalmente baseada na ideia falsa de que é um recurso preguiçoso ou amplamente reutilizado, por pessoas que não acordam para o fato de que seus pressupostos fantásticos favoritos (realidades alternativas, viagens no tempo, exploração espacial, mundos ligados por portais) são exageradamente mais explorados que o sonhar.

Passada essa minha impressão sobre o tema do livro e a visão geral do público contemporâneo, é bom destacar que a história se mantém bastante pé no chão. Sofia é, para todos os efeitos, uma garota normal na faixa dos vinte anos, com atividades normais e uma curiosidade aguçada que a leva a alavancar a trama. A personagem faz parte de um elenco pequeno, mas bem caracterizado (à exceção de uns 4 que existem para tapar buraco, mas mesmo eles sendo superficiais, possuem nomes próprios e de fato têm buraco para tapar, não são jogados à toa). Todos são coerentes, e Marcus, o par romântico, é o mais energético, com atitudes e falas que mais tendem a causar impacto.

O estilo de escrita foi o ponto baixo da leitura. A estrutura frasal é, como pode-se ver na sinopse também, direta, ágil e bastante impessoal. É uma escrita que os analistas de “show, don't tell” iriam se deleitar criticando. Já tendo lido outros trabalhos da autora (com escrita primorosa, eu destaco), entendo que ela tem uma versatilidade grande de estilos, e encerrei o livro imaginando que a escolha do tipo de narrativa aplicado pode ter sido intencional, pensado no público-alvo ou no gênero da história. Para exemplificar, deixo dois trechos:


"Olhou para o relógio, que acusava 3:30h da manhã. Levou a mão à testa, no local da pancada. Não doía e nem parecia inchado. Levantou-se com um pouco de dificuldade e foi até o espelho. Olhou-se. Não havia mancha de pancada e nem calo. Acendeu a luz do quarto e olhou novamente no espelho, procurando pelo local machucado. Nenhum sinal da pancada, muito menos do corte na boca".

"Ele não era do tipo que envolvia-se com mulheres que havia acabado de conhecer. Muito menos com alunas ou colegas de trabalho. Muitas vezes tinha sido assediado por alunas que confundiam seu papel de professor. Ele sabia separar muito bem, estava ali para guiar as pessoas, levar conhecimento sobre um assunto mal difundido. Em onze anos de trabalho naquele campo, jamais tinha se deixado envolver por ninguém. Não faltaram oportunidades. Algumas alunas foram muito insistentes e trouxeram-lhe uma grande dor de cabeça, causando-lhe problemas para resolver a situação sem desestabilizar ninguém. Mas algo em Sofia, sua energia doce e ao mesmo tempo decidida e resolvida, havia despertado nele um desejo incontrolável de tê-la em seus braços".


Uma coisa que independe da adequação a público ou temática e que me irritou IMENSAMENTE na escrita foi o problema das repetições. Elas são inúmeras, permeiam todo o corpo do livro na forma de verbos, nomes próprios, substantivos simples, ações, o que der para imaginar. Há MUITAS repetições no texto, e se a narrativa não fosse tão simples e fácil de carregar o leitor pelas páginas, acredito que teria abandonado o livro por conta delas.


"Era como se conseguisse dali olhar a própria vida pelos olhos de um observador. Como se conseguisse ausentar-se de sua própria vida e observá-la de longe".

"Ela entendeu que não adiantaria explicar naquele momento, Sofia não ouviria, não aceitaria, não acreditaria. Matilda sentiu a raiva de Sofia e respeitou o momento. Sofia despediu-se de Laura e desceu rapidamente com os amigos".


No mais, o livro é curto, interessante, com uma temática diferenciada e gostoso de se conhecer. Não acredito que a fórmula da jornada do herói tenha sido utilizada aqui, mas foi interessante chegar em alguns momentos e perceber que Sofia estava trilhando o caminho de uma heroína. Para fechar, deixo uma referência que percebi (me pergunto se há outras referências não tão óbvias que deixei passar):


"Corram, seus tolos! — Gritou o senhor da porta da casa".


O que gostei:
- História interessante.
- Temática diferente e curiosa.
- Personagens bem apresentados.
- Final inesperado e recompensador.

O que não gostei:
- Muita repetição.
- Aos 40% do livro tive a única pausa demorada na leitura, pois há ali uma cena solta, mostrando o cotidiano de Sofia na faculdade, que é absolutamente inútil para a história.

Considerações finais:
A última chave é um livro de aventura, sobre um assunto interessante e capaz de levar o leitor muito facilmente pelas suas páginas. Com um ou outro percalço, é uma obra que recomendo para leitores jovens ou experientes buscando algo descompromissado.



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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Impressões: Dois contos de brasileiros


Postagem miudinha só para registrar minhas impressões sobre dois continhos. A ideia era acumular uns cinco e postar tudo junto, mas me dei conta de que os próximos da lista de leitura são romances longos, e, se eu postergar demais o post de contos, acabarei me esquecendo de recomendar estas duas boas obras. Contos de Camila M. Guerra e Rodrigo Assis Mesquita.

Em meio ao turbilhão de notícias, ideias e informações das mais variadas, que inundam nosso momento atual, os sinais de pontuação vêm sofrendo o maior boicote de sua história. A pedido de um de seus mais ilustres membros, a autora aceitou narrar, neste breve conto, a revolta e a ação desses personagens com relação aos seus padecimentos. Um texto sobre os abusos, as decepções e as lutas dessa família tão importante para a gramática dos textos que nascem no coração das pessoas.


Definitivo: Pontuando Momentos é um conto cômico e muito bem escrito, que narra o acontecido com a família dos sinais de pontuação. É bem divertido e de facílima identificação, ainda mais para esta época de constante leitura nas redes sociais, locais que podem até ter regras, mas não de pontuação. Já li outro conto da autora, e até agora só cresceu a minha admiração pelo talento dela.



Brasil Cyberpunk 2115: Você não pode ter tudo o que quer
Em um futuro Brasil devastado pela guerra, a hacker Hel se junta a um grupo de mercenários contratado pelo homem mais rico do planeta para encontrar um artefato raro do século XXI, colocando a própria vida em risco no fogo cruzado entre humanos e androides.


Brasil Cyberpunk 2115: Você não pode ter tudo que quer conta uma história simples, cheia de humor trivial e personagens marcantes. Percebi que o gênero de FC continua não sendo a minha praia, mas a maneira de contar a história é tão prazerosa que eu comecei e terminei a leitura em uma tacada só. Já tinha lido um conto do autor, do gênero Fantasia, e identifico a mesma pegada na escrita; os gêneros literários são mais panos de fundo para histórias atuais e bem caracterizadas, e a jocosidade na narrativa me leva a crer que dariam ótimas peças de teatro.





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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Impressões: Madame Bovary, de Gustave Flaubert


Mil anos depois da última resenha, apareço após a leitura de uma dezena de mangás (de One Piece) para redigir mais um texto de impressões. Neste post, retorno aos clássicos para conhecer o trabalho de Gustave Flaubert, em Madame Bovary, um romance amplamente aclamado e até mencionado em certos círculos como o melhor romance de todos os tempos (tendo sido, inclusive, a expressão "bovarismo" criada a partir do livro). Vamos lá, porque já enrolei demais.




"Texto de suma importância, Madame Bovary é uma leitura essencial, sendo considerado um dos melhores romances da literatura, sendo, provavelmente, o melhor dos livros do romance realista de caráter psicológico do século XIX. Para mostrar seu mundo, Flaubert põe em cena uma personagem em total desacordo com sua realidade, com sua posição social e com seu sexo. É nessa personagem que se centrarão as ações desenvolvidas na narrativa e os principais dilemas da obra. O enredo gira em torno de Emma Bovary, casada com o médico Charles. Emma vive imersa na leitura de romances românticos e, por viver um casamento enfadonho, procura no adultério a libertação de seus problemas. A trama possui um desfecho trágico, e da criação de Flaubert partem grandes linhas de força do romance moderno e sua repercussão no contexto literário francês e mundial é intensa e permanente."



Após puxar o saco um pouquinho, a sinopse apresenta o pano de fundo com fidelidade e chega a insinuar o desfecho, algo que afastaria logo de cara alguns leitores que conheço; como o livro tem mais de um século, deixemos o repúdio ao spoiler de lado, até por conta do fundamento que destaca a obra das demais: a profunda beleza da arte literária na construção da realidade. É claro que há toda implicação decorrente do teor do enredo, ainda mais para a sociedade da época, mas não é do meu feitio expor aqui no blog o desenrolar político, social ou autoral dos livros que leio, e dessa forma permanecerei. Me ausentar da discussão mais acalorada sobre o livro, no entanto, não me priva dos melhores predicados da obra. Porque, ainda que a mulher adúltera tenha sido o furor que evidenciou Madame Bovary, foi o próprio talento literário de Flaubert que deu substância ao tema.

Charles e Emma Bovary formam o casal protagonista do livro. Ele, um homem simplório, permanece sempre devotado a uma vida de conforto básico e emprego da vida cotidiana, apresentando um medo constante do que pode se apresentar fora dela. Ela, uma sonhadora, não chega a ser uma pessoa de ambições - o que bastaria para contrastar com o marido - porém nunca deixou de acreditar que fosse merecedora de muito mais, seja no âmbito econômico quanto no afetivo e emocional. Sua reverência aos mundos intensos das histórias de ficção transformou Emma em alguém incapaz de aceitar a realidade que a cercava. Passagens que considero extremamente precisas para delinear as duas personagens, deixo abaixo.


"Acertava sobretudo com os catarros e as doenças de peito. Tendo muito receio de matar os doentes, Charles, realmente, pouco mais receitava do que calmantes, de quando em quando um emético, um escalda-pés ou sanguessugas. Não é que tivesse medo da cirurgia; sangrava abundantemente as pessoas, como se fossem cavalos, e tinha um pulso de ferro para arrancar dentes".

"Contava histórias, dava-lhes novidades, fazia-lhes recados na cidade e, às mais crescidas, emprestava, em segredo, alguns romances que trazia sempre nos bolsos do avental e dos quais ela mesma devorava longos capítulos nos intervalos das suas ocupações. Tratavam só de amores, de amantes, senhoras perseguidas desmaiando em pavilhões solitários, postilhões assassinados em todas as paragens para trocar de animais, cavalos abatidos em todas as páginas, florestas sombrias, perturbações do coração, juramentos, soluços, lágrimas e beijos, barquinhos ao luar, rouxinóis nos bosques, cavalheiros valentes como leões, mansos como cordeiros, mais virtuosos do que aqueles que realmente existem, sempre bem apresentáveis e chorando como urnas".


Sim, as aspirações de Emma são mágicas e desproporcionais, e para enrijecer ainda mais a característica de sonhadora dela, há na primeira parte do livro uma situação de desejo entre ela e León, jovem escriturário da cidadezinha, que não chega a se consumar. Ele parte em busca das oportunidades da cidade grande, deixando seu amor platônico para trás e Emma, que correspondia o sentimento, se viu completamente destruída, de modo que segue uma passagem para exemplificar o seu estado após a partida de León:


"Entretanto, as chamas aplacaram-se, ou porque as reservas por si mesmas se exaurissem, ou porque o amontoamento fosse demasiado grande. O amor extinguiu-se, pouco a pouco, pela ausência e a saudade foi sufocada pelo hábito; aquele clarão de incêndio que lhe tingia de púrpura o céu pálido cobriu-se de mais sombras e extinguiu-se gradualmente".


Os humores de Emma se transformam mediante as expectativas, mais que por qualquer outra coisa. Fosse uma linda história de amor inventada num livro, fosse o próprio amor batendo à sua porta com o nome de León, para ela valia mais o sentimento que ela projetava que propriamente o que acontecia a si. Isso fica bem evidente mais para frente, quando ela se torna adúltera e aquilo a enche de alegria, mas que, com o tempo, mesmo a felicidade afetiva consumada não lhe causa mais impressão, de maneira que sua busca pelo imaginário a impele a forçar uma fuga com Rodolphe, o amante, que imediatamente se dá conta de que estava a lidar com uma biruta.

Mas largando adultérios e desilusões para o lado, passo para o aspecto que mais me abalou no livro: a escrita do autor. Não sendo um autor contemporâneo, há que se observar algumas lombadas, mas em nenhum momento senti o enfado que Balzac algumas vezes me proporcionou, por exemplo. O estilo não se ausenta e nas mais variadas passagens é possível ver o talento absurdo com a prosa literária. Separei um diálogo rápido que encena toda uma situação e uma descrição de um rápido gesto, para que se perceba que na escrita de Flaubert não há percalços. 


"Tem razão - interrompeu o boticário -, há o reverso da medalha! É preciso andar sempre com a mão a segurar a carteira. Em Paris, por exemplo, está-se num jardim público e aparece um fulano, muito apresentável, condecorado até, que se poderia tomar por um diplomata; apresenta-se, estabelece-se a conversação; ele insinua-se, oferece uma pitada, apanha-nos o chapéu que caiu. A gente toma mais confiança, ele leva-nos ao café, convida-nos a ir à sua casa de campo, entre dois cálices apresenta-nos a uma quantidade de pessoas e, durante três quartas partes do tempo, não faz senão explorar-nos a bolsa ou levar-nos a dar passos perniciosos".

"Rodolphe apertava-Lhe a mão e sentia-a muito quente e trémula, como uma rola cativa que quer retomar novamente o voo, mas, ou porque tentasse desprendê-la, ou então porque estivesse correspondendo àquela pressão, ela fez um movimento com os dedos; e ele exclamou: - Oh!, obrigado! Vejo que não me repele! É muito bondosa!"


Ainda que existissem descrições espaciais ou visuais que hora ou outra me deixassem desejoso pelo seu fim, elas não foram desnecessárias, pois concretizaram o cenário e toda a cena narrada. Posso dizer que meu desgosto por elas são mais por questão de eu mesmo não conhecer algumas particularidades de vestimenta ou de estética parisiense da época, e tenho certeza que, para um leitor dedicado a imaginar visualmente a narrativa do livro, elas se provam bastante úteis. E são bem curtas, para dizer a verdade; mas como eu queria dizer algo sobre descrições, fica essa "alfinetada". As descrições psicológicas, que são maioria, eu já nem preciso me esbaldar em elogios, por isso destaco mais uma das percepções de Emma:


"Para Emma, desprendia-se qualquer coisa de vertiginoso daquelas existências amontoadas, inundando-lhe abundantemente o coração, como se as cento e vinte mil almas que ali palpitavam lhe enviassem, todas ao mesmo tempo, o vapor das paixões que ela lhes atribuía. O amor avolumava-se-lhe diante do espaço e enchia-se de tumulto com rumores vagos que subiam".


Eu não consigo pensar em mais o que dizer sobre Madame Bovary. Não vou elencar os pontos que gostei e não gostei, porque o conjunto da obra ficou PERFEITO e, na minha leitura, é indissociável. Deixo aqui para finalizar, um trecho que demonstra a capacidade de sucintez desse mestre da literatura, narrando uma cena de quando Emma resolve chutar o balde e trair a rodo o corno Charles.


"A partir daquele momento, a sua vida não foi mais que uma coleção de mentiras, em que envolvia o seu amor como que em véus, para o esconder. Era uma necessidade, uma mania, um prazer, de tal maneira que, se ela dissesse que passara no dia anterior pelo lado direito de uma rua, tinha de se entender que passara pelo lado esquerdo. Uma manhã em que acabara de sair, segundo o seu costume, com uma roupa bastante leve, começou repentinamente a nevar, e, como Charles estivesse à janela a observar o tempo, viu o padre Bournisien na carruagem do senhor Tuvache, que o ia levar a Ruão. Saiu então a confiar ao eclesiástico um grande xaile para que ele o entregasse a Emma quando chegasse à Cruz Vermelha. Logo que chegou à estalagem, Bournisien perguntou onde estava a mulher do médico de Yonville. A estalajadeira respondeu que ela frequentava muito pouco o seu estabelecimento".


Considerações finais:
Posso contar nos dedos de uma mão, as vezes que terminei algo e quis chamar de OBRA-PRIMA. Madame Bovary foi assim.





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sábado, 18 de março de 2017

Impressões: O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro


O ano está sendo lento para leituras, mas a qualidade está proporcional à vagareza, então é com muita alegria e SATISFAÇÃO que escrevo sobre esta maravilha chamada O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro.



Uma terra marcada por guerras recentes e amaldiçoada por uma misteriosa névoa do esquecimento. Uma população desnorteada diante de ameaças múltiplas. Um casal que parte numa jornada em busca do filho e no caminho terá seu amor posto à prova — será nosso sentimento forte o bastante quando já não há reminiscências da história que nos une? Épico arturiano, o primeiro romance de Kazuo Ishiguro em uma década envereda pela fantasia e se aproxima do universo de George R.R. Martin e Tolkien, comprovando a capacidade do autor de se reinventar a cada obra. Entre a aventura fantástica e o lirismo, O gigante enterrado fala de alguns dos temas mais caros à humanidade: o amor, a guerra e a memória.


A sinopse resume bem a premissa do livro, embora seja uma patifaria isso de fazer alusão a Tolkien e Martin. Pegadinha de marqueteiro com altíssimo potencial de decepcionar o leitor que compra por conta dessa suposta similaridade, bem como o adjetivo de "épico arturiano". Malandragens de lado, a história segue um casal de velhinhos, Axl e Beatrice, numa viagem em busca de melhores condições para viver, na aldeia do filho.

A narrativa não é linear; volta e meia o texto muda para uma cena do passado dos personagens, ou para recontar o presente de uma perspectiva diferente. A princípio estranhei a obra, pois tudo era desconectado da narrativa principal, mas quanto mais a leitura avançava, mas sentia que as cenas e principalmente o recurso literário iam se adequando. Próximo ao final eu fiquei perplexo em perceber que o tema principal do livro, a importância da memória na psique humana e coletiva, estava retratada também na maneira de contar a obra, fazendo o leitor exercitar sua própria memória ou cair na confusão que aflige os personagens do livro. A voz narrativa não é uniforme, e pode passar de primeira para terceira pessoa, dependendo da cena.

A escrita foi a única coisa que me deixou decepcionado, porém em pouquíssimos casos pontuais. No geral, a escrita tem uma leveza contemporânea que equilibra bem as descrições, narrações de ações e dilemas emocionais, sendo esse último o que é enfatizado com mais frequência. A minha estranheza foi de encontrar, principalmente no primeiro terço do livro, frases de extremo mal gosto. Isso acontece umas oito vezes durante o livro; é pouco, mas são frases tão atropeladas que causam uma espécie de cacofonia aguda impossível de deixar passar. Em todas as vezes que elas apareceram, eu acabei interrompendo a leitura por alguns minutos, principalmente por meu interesse no autor ser o elogiadíssimo trabalho dele na parte da linguagem. Confesso que, por esses casos surgirem tão mais no começo do livro, cogitei repensar minhas expectativas para a leitura. De qualquer modo, deixo aqui algumas das frases que marquei durante a leitura. Como pode-se observar, as frases de maneira alguma são longas e mesmo assim a quantidade de orações formam um entulho horrendo na composição, o que poderia ser facilmente melhorado com cortes e substituições básicas.

"Essa seria a imagem que Axl e Beatrice veriam logo abaixo quando pararam para recuperar o fôlego, enquanto desciam a encosta."

"Mais cedo naquele dia, antes de eles chegarem ao mosteiro, o garoto já os tinha deixado boquiabertos com a rapidez com que conseguia cavar a terra com duas pedras chatas que encontrara por acaso lá por perto."

"Quando esta minha febre passar, nós vamos subir essas colinas e eu aposto que você vai descobrir que o próprio céu estará te sussurrando que caminho seguir até que cheguemos diante da toca da dragoa.”


Os personagens são poucos, mas incrivelmente bem caracterizados. As posições que cada um assume na trama são também facilitadores de conflitos, e a interação entre eles não deixa de ser instigante nem quando tudo parece que vai correr de maneira pacata e desinteressante. Abaixo deixo uma citação de diálogo entre o guerreiro e o menino.

“Se eu cair e você sobreviver, me prometa que vai carregar no coração um ódio infinito aos bretões.” “Como assim, guerreiro? A que bretões?” “A todos os bretões, jovem companheiro. Até mesmo aos que forem gentis com você.” “Não estou entendendo, guerreiro. Eu devo odiar até mesmo um bretão que divida o pão dele comigo? Ou que me salve de um inimigo, como fez há pouco o bom sir Gawain?” “Há bretões que atraem o nosso respeito e até mesmo o nosso amor, eu sei disso muito bem. Mas há coisas maiores pesando sobre nós agora do que o que cada um pode sentir um pelo outro. Foram bretões sob o comando de Arthur que chacinaram o nosso povo. Foram bretões que levaram a sua mãe e a minha. Nós temos o dever de odiar cada homem, mulher e criança que carregue o sangue deles. Então me prometa isso: se eu cair antes de transmitir a você as minhas habilidades, prometa que vai alimentar bem esse ódio no seu coração. E se algum dia ele bruxulear ou ameaçar morrer, proteja-o com cuidado até que a chama volte a arder com intensidade de novo. Você me promete isso, jovem Edwin?”

O que gostei:
Tudo.

O que não gostei:
As raras frases de formulação pobre.

Considerações finais:
O gigante enterrado foi uma leitura maravilhosa. Não oferece muitos aspectos tradicionais na proposta de literatura de fantasia, mas não deixa de ser uma jornada brilhante, comovente e edificadora. É possível perdoar um erro sem antes esquecê-lo? Leia a obra e decida. O que posso dizer com certeza é que eu nunca me esquecerei dessa leitura fantástica!


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domingo, 8 de janeiro de 2017

Impressões: A Menina - Uma vida à sombra de Roman Polanski, de Samantha Geimer



The Girl: A Life in the Shadow of Roman Polanski
Indo muito além das manchetes, A menina: uma vida à sombra de Roman Polanski revela uma garota de treze anos que era ao mesmo tempo muito mais esperta do que sua idade e, mesmo assim, terrivelmente vulnerável e ingênua. Mas, ao contar sua história completa pela primeira vez, Samantha reclama sua identidade, e indelevelmente prova que é possível ir de vítima a sobrevivente, da confusão à certeza, da vergonha à força.

A menina é um livro cheio de altos e baixos, com viradas e piruetas entre eles. Comecei porque estava afim de ler uma não-ficção, e como era o que eu tinha à mão, acabei lendo unicamente para não ter que gastar dinheiro comprando uma biografia de alguém que conheço. Digo isso porque não conhecia a autora, nem sequer conhecia o pivô de tudo, Roman Polanski. Mas era o que tinha para hoje, então li. 

O livro conta a versão da autora sobre partes da sua vida envolvendo o caso de estupro que sofreu na mão do diretor de cinema e pormenores não tão relacionados assim com o evento. Achei interessante o livro pela sua naturalidade narrativa, até mesmo no início, antes do relato do estupro, o que me fez lembrar que até a mais banal das histórias cotidianas pode ser interessante. O estilo de escrita é inexistente; de fato, a escrita é praticamente uma transcrição de discurso oral, quase vulgar. O aparecimento de recortes de jornal ou de documentos do processo no texto do livro destoam, mas isso não influencia muito na percepção do livro enquanto obra literária, muito pelo contrário. Por conta deles, o livro acaba sendo ainda menos literário (no que tange à arte), mas em nenhum momento achei que essa fosse a aspiração da autora. 

O destaque, na minha opinião, é o posicionamento da vítima sobre o crime de estupro. Fiquei chocado com o que li no livro, e após uma análise interna, entendi o porquê. De uns anos para cá, algumas pautas políticas acabaram norteando a produção de conteúdo de entretenimento, e o tema "estupro" foi levado junto com isso. Hoje em dia ele se tornou um tabu muito grande (na literatura, em especial, é até razão para revolta e textão no blog), e a leitura do livro me alertou para o fato de eu ter sido sugado para essa corrente de pensamento comportamento. Ver um caso (que aconteceu na vida real, ainda por cima) em que uma vítima de estupro não coloca o crime como a coisa execrável, repudiante e hedionda que normalmente eu vejo em 100% dos posts/artigos de opinião na internet que abordam o tema, teve o mesmo efeito de um soco na cara. Eu poderia vir aqui e dizer que o livro foi uma perda de tempo, enquanto leitura de lazer, mas essa libertação que ele me trouxe foi muito engrandecedora. Agora eu consigo pensar no tema com a complexidade que ele exige, saindo da bitolagem na qual eu me encontrava, rotulando representação de estupro como humanizado ou não, favorável ou não para o debate público sobre o tema, e outros tantos chavões que acabei repetindo quase que por osmose.

O livro é dispensável, não acho que alguém PRECISE ler, a não ser os fãs do diretor ou pessoas que tenham se interessado pelo caso que se arrastou na justiça americana por décadas. De uma forma ou outra, ainda é mais útil que certas bobagens aclamadas na literatura de fantasia que eu vinha admirando, desprezando ou querendo ler, mas que não passam de enlatados produzidos em massa seguindo as mesmas fórmulas estruturais. 



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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O pior ano das letras


Resolvi abandonar Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, porque a edição que peguei para ler estava horrorosa, e quando fui atualizar a leitura no goodreads, percebi o quão ruim foi esse ano para as minhas leituras.Somando isso ao aporrinhamento do goodreads apontando na minha cara que estou 10 livros atrasado na meta de leitura de 2016 (que nem é alta), decidi que era hora de fazer um post de resmungo combinado com desistências e uma pitada de esperança em livros melhores daqui para frente. 

Primeiro, vamos dar nome aos bois. O que gostei, não gostei e me deixou em cima do muro:


Já dá para ver que os bons foram raridade, e vale ressaltar que, dos bons, o único que salvou a pátria mesmo foi O Apanhador no Campo de Centeio.

Calma que desgraça pouca é bobagem: eu já tinha feito um post reclamando das leituras e não sei o que mais, e tinha finalizado ele com uma listinha promissora para ler e terminar o ano satisfeito. Pois bem, estou me isentando de qualquer obrigação de lê-los, a minha máxima agora vai ser VEJO A CAPA E A SINOPSE, SE GOSTAR, EU PEGO PARA LER. Serei drástico assim porque os livros abaixo (praticamente comprei ou baixei todos) eu acrescentei na lista de leitura devido a: estarem falando muito bem do autor/obra. Simplesmente isso. Eu estava indo pela cabeça dos outros. Minhas leituras em 2015 foram escolhidas muito mais da minha percepção, e acabou sendo um ano de leituras maravilhosas, ainda que a maioria fosse de autores novos ou de pouco reconhecimento. Pode ser que eu pegue algum livro abaixo para ler? Sim, mas será porque ele me despertou interesse; O LIVRO, NÃO O FULANINHO QUE VEM NA INTERNET HYPAR OS FAVORITINHOS DELE.




Agora estou calmo.
=3



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Impressões: O feiticeiro de Terramar, de Ursula Le Guin


O livro do post foi escolhido para que a resenha saísse logo na semana de lançamento, o que evidentemente não aconteceu. O motivo é simples: apesar de curto, o livro demandou muitos dias para que eu o concluísse, cheguei a pegar a versão em ebook da edição antiga para agilizar o passo no kindle, e mesmo assim tive muitos entraves para dar sequência à leitura. E olhe que numa comparação, achei a tradução antiga muito melhor, mais "saborosa", porém a fluidez simplesmente não veio. Estou falando de O feiticeiro de Terramar, da autora Ursula Le Guin.



Há quem diga que o feiticeiro mais poderoso de todos os tempos é um homem chamado Gavião. Este livro narra as aventuras de Ged, o menino que um dia se tornará essa lenda. 
Ainda pequeno, o pastor órfão de mãe descobriu seus poderes e foi para uma escola de magos. Porém, deslumbrado com tudo o que a magia podia lhe proporcionar, Ged foi logo dominado pelo orgulho e a impaciência e, sem querer, libertou um grande mal, um monstro assustador que o levou a uma cruzada mortal pelos mares solitários.

A sinopse é honesta, mas não inequívoca. Ao declarar certos eventos como prenúncio para uma aventura maior e cheia de emoções, de cara já suponho uma manipulação marqueteira, uma vez que há muito o que se ler até chegar à chamada "partida para resolver o problema do monstro assustador". O agravo: o que é lido antes desta cruzada de Ged é muito mais interessante que o que vem depois. Não quero continuar sendo negativo do início ao fim, então vou destacar uma qualidade que saltou aos meus olhos na leitura: a escrita!

"E como os seis irmãos de Duny eram vários anos mais velhos que ele e, um por um, deixaram a casa para irem trabalhar a terra ou navegar no mar ou trabalhar nas forjas de outras povoações do vale do Norte, não houve ninguém que criasse a criança com afeto. Fez-se bravio, desenvolvendo-se como erva daninha, até se tornar um rapaz alto e enérgico, barulhento e orgulhoso, cheio de vivacidade".

O feiticeiro de Terramar é um livro de fantasia direto, com uma concisão primorosa e uma beleza rara de escrita. A sintetização de ideias mostrada no parágrafo acima é tão acertada que dispensa qualquer flashback, memória contada ou conflito interno para definir o protagonista. Simplesmente diz quem é, e isso basta.

"Vivia na aldeia uma irmã da sua falecida mãe que fizera o necessário por ele enquanto bebê mas, tendo coisas suas com que se ocupar, não se importou mais com ele assim que o rapaz pôde cuidar de si próprio".

Uma frase condensou o que a gente vê por aí levar parágrafos, até capítulos, em alguns casos. Eis o talento invejável da autora. Amei ler o seu texto e me deslumbrei com a capacidade dela se expressar. Mas o fascínio ficou por aí.

Ged é um jovem com aptidão para magia que, insatisfeito com o treinamento proposto pelo seu sábio mestre, sai para ser aluno numa escola de magia. Os eventos e personagens alocados nessa porção do livro são interessantes, de maneira que a obra se mostra uma preciosa peça literária tanto quanto história de entretenimento. E nem se pode dizer o contrário dos personagens e eventos que aparecem depois, mas a condição de indiferença de Ged, por ter liberado a sombra - mas, principalmente, por consequência da sabedoria e dos poderes que adquiriu após se tornar um mago completo - monta uma parede que barra qualquer entusiasmo. As viagens são monótonas e as situações são anti-climáticas. Não porque não houve preocupação ou desleixo da autora, mas porque Ged sabia que não devia afetar o mundo. É como o manjado recurso de viagem no tempo tanto usado em ficção científica: o viajante não pode mudar eventos do passado ou vai causar problemas, mas algo muda e por isso a história permanece interessante. Aqui, Ged insiste em não causar problemas, e o que prende a leitura é tão somente o mistério da sombra, nada mais. Pelo menos, pode-se dizer que a conduta chata de Ged se encaixa de maneira perfeita no tema do livro, que carrega uma proposta sóbria, tão diferente da maioria das fantasias. Aliás, a magia de Terramar é claramente uma ciência, apesar de não deixar de ser magia:

"Nada tinha a ver com ilusão, mas apenas com verdadeira magia, a invocação de energias como a luz e o calor, e a força que atrai o íman, bem como as forças que o homem conhece como peso, forma, cor e som. Poderes reais, extraídos das imensas, incalculáveis energias do universo, que nenhum encantamento ou uso humano poderia alguma vez exaurir ou desequilibrar".

Nas descrições, senti emoções diversas. Em geral gostei, porque a escrita é boa, mas preciso ressaltar o incômodo da apresentação geográfica, que parece jogada livremente:

"Fundearam durante uma noite em Foz-do-Kember, o porto mais a norte da Ilha de Way, e na seguinte, numa pequena cidade à entrada da Baía de Felkway, passando no dia seguinte o cabo norte de O e entrando nos Estreitos de Ebavnor".

O cenário é sempre tratando assim, despejando nomes de ilhas, cidades, portos. Quase nada afeta realmente a narrativa, e todas se perdem ao virar de página. Recentemente fiz a mesma reclamação no post sobre As mentiras de Locke Lamora, que usa o mesmo recurso de construção de cenário ao mencionar bairros da cidade.

Não vou dispor em tópicos o que gostei e não gostei, até porque é mais fácil resumir em uma linha: gostei dos personagens, da escrita e das cenas; e não gostei do conjunto da história, de Ged e das passagens entre as cenas (que são basicamente as andanças/viagens marítimas e a maior parte do livro).

Mais alguns trechos ótimos que faço questão de destacar, abaixo.


"Nessa noite, e sempre daí em diante, ofereceu e deu a Gued amizade. Uma amizade firme e aberta que Gued não podia deixar de retribuir".

Mais uma vez, o poder de síntese que dispensa floreios e artimanhas de autores prolixos.

"(...) à medida que o poder real de um homem aumenta e se alarga o seu conhecimento, tanto mais se vai estreitando o caminho que lhe é possível seguir. Até que, finalmente, ele nada escolhe, mas faz apenas, e na sua totalidade, o que tem de fazer".

Resumiu a atitude do mago Ged, deixando o leitor com uma ótima extrapolação filosófica do texto, e reforçando a ausência do inesperado na história.

"Servos abriram portas e desviaram-se para o lado perante Gued e a dama, todos eles pálidos e frios osskilianos. Também a pele dela era clara, mas, ao contrário deles, falava bem a língua Hardic e mesmo, pareceu a Gued, com o sotaque de Gont. Mais tarde, nesse mesmo dia, ela levou-o perante o marido, Benderesk, Senhor da Terrenon. Com três vezes a sua idade, branco como um osso e como um osso magro, de olhar turvo, o Senhor Benderesk acolheu Gued com uma fria e severa cortesia, convidando-o a permanecer como hóspede durante o tempo que lhe aprouvesse. Depois pouco mais teve para dizer, nada perguntando a Gued das suas viagens ou do inimigo que o perseguira até ali".

Mais uma aula, com tanto dito em tão pouco. Uma escrita densa e admirável.

"Quase cedera, mas, por pouco, não chegara a ceder. Ele não aquiescera. E é muito difícil para o mal apoderar-se da alma que não aquiesce".

Uma frase que seria prato cheio para críticas, cuja beleza sobrepõe a necessidade de reformulações.

Considerações finais:
Um livro que enche os olhos a cada frase lida, mas que não impele ninguém a ler a que vem a seguir. O principal motivo que eu vejo para recomendá-lo, é o nome da autora.








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