segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Impressões: O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger


Minhas impressões sobre a obra mais célebre de J. D. Salinger, o polêmico O apanhador no campo de centeio. Capa, sinopse e minha reação a seguir.



Um garoto americano de 16 anos relata com suas próprias palavras as experiências que ele atravessa durante os tempos de escola e depois. Revela o que se passa em sua cabeça. O que será que um adolescente pensa sobre seus pais, professores e amigos?


Livro espetacular! Nem vou fazer comentários, pois não me sinto capaz para a tarefa, o livro é pura psicologia. Narrado em primeira pessoa, ele reproduz exatamente o que muita gente é (especialmente hoje em dia com a geração depressão) e que outros só são em alguns momentos da vida. Holden Caulfield é deprimido, insatisfeito, prepotente e covarde; covarde ao ponto de não virar um personagem revoltadinho que certamente estragaria a história, como esse tipinho sempre faz. Fico mesmo devendo uma análise melhor, mas não sei expressar em resenha todas as sacadas geniais que peguei (várias vezes) durante a leitura. Deixo abaixo alguns quotes que marquei no Kindle.


Depois que eu disse a ela que tinha um encontro marcado, não podia mesmo fazer droga nenhuma senão sair. Nem podia ficar por lá para ouvir o Ernie tocar alguma coisa minimamente decente. Mas não ia de jeito nenhum sentar numa mesa com a Lillian Simmons e com aquele cara da Marinha e morrer de chateação. Por isso saí. Mas fiquei danado quando apanhei meu sobretudo. As pessoas estão sempre atrapalhando a vida da gente.
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- Tá bom - eu disse. Era contra meus princípios e tudo, mas eu estava me sentindo tão deprimido que nem pensei. Esse é que é o problema. Quando a gente está se sentindo muito deprimido não consegue nem pensar.
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Mas morei com ele uns dois meses, apesar de toda a chatura, só porque ele assoviava bem pra burro. Por isso, tenho minhas dúvidas quanto aos chatos.
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O mais engraçado é que, na hora que a vi, me deu uma bruta vontade de casar com ela. Sou biruta. Nem ao menos gostava muito dela e, apesar disso, de repente, me senti como se estivesse apaixonado e quisesse casar com ela. Juro por Deus que sou biruta. Reconheço.




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sábado, 13 de agosto de 2016

Impressões: A velha casa na colina, de Fábio Barreto

A constância nos posts vai voltar, ao que parece, e nesta retomada trago mais um livro de autor brasileiro contemporâneo. Capa, sinopse e minhas impressões sobre A velha casa na colina, de  Fábio Barreto, logo abaixo.




Nick Pershin tinha a vida pela frente, com sonhos e ambições, mas, ainda na infância, decidiu bater à porta da velha casa na colina e viu tudo ruir conforme foi lançado num rodamoinho repleto de morte, tragédia e uma decisão irreversível a ser tomada. 



O livro é menor do que eu esperava. Na verdade, só agora que fui buscar a sinopse e capa na internet foi que li na descrição que é um conto. Provavelmente o meu desconhecimento só melhorou a experiência de leitura, afinal eu estava determinado a não ler mais contos até o fim do ano, e não saber o número de páginas (leio no kindle) me proporcionou terminar esta prazerosa história que passaria batida caso eu a colocasse na coleção de contos. Assim sendo, vou estruturar o post de modo a mesclar as observações que faço a romances com a brevidade dos comentários que faço a contos. Bom, chega de falar de mim, vamos à história! 

A sinopse é genérica e não representa o enredo, mas chama atenção e, bom, talvez seja isso que conte... Nick começa como uma criança comum, presencia um evento sobrenatural traumático e reaparece jovem adulto para dar prosseguimento à história como protagonista. Esse prosseguimento de narrativa é algo notável ao leitor com certa facilidade, pois os fatos (principalmente as reações das personagens aos eventos) são forçados a um nível teatral. Levando em conta que contos precisam de uma agilidade maior no andamento e atribuindo tais exageros comportamentais e psicológicos na parte sobrenatural da história, acaba que a "forçação de barra" é relevada e a leitura segue sem percalços.

A narrativa é bastante visual e não se perde em nenhum momento. É daqueles livros que não deixa o leitor se afastar com facilidade, tamanha a linearidade da sequência dos fatos narrados. Na parte descritiva há um soluço ou outro, mas nada de alarmante, como em:

"A peça de metal, no formato de cabeça de cavalo, segurava uma argola dourada e protegia a entrada, intocada há décadas. Ela era gigante, pois, por muito tempo, também foi utilizada como sanatório local."

O trecho inicia descrevendo uma aldrava bem amadoramente, mas é na segunda frase que fica esquisito. O "pois", por ser conjunção coordenada explicativa, deveria estabelecer uma causa ou justificativa, mas não existe tal coisa entre o prédio ser um sanatório e a porta ser gigante. São coisas pequenas como palavras soltas, e uma questão pertinente surge desses solavancos. No início do ebook é comentado que o autor mora nos Estados Unidos, e trabalha com roteiros; será que o livro foi escrito originalmente em inglês ou em português? Nada sobre isso é comentado. Me fiz essa pergunta especificamente ao chegar no trecho seguinte:

"Thomas tentou acalmar o filho, mas ele continuava a tagarelar sobre Clive ter sido engolido. Quando entendeu o cenário, praticamente..."

A palavra "cenário" não é costumeiramente usada como "situação" no Brasil (embora seja usado regularmente em ambiente de empresariado, workshops e coisas do tipo), mas é nos EUA. Fica a dúvida. Entretanto, como os exemplos mostram, são apenas escolhas de palavras específicas que trazem algum estranhamento, nada de pavoroso; qualquer leitor pode seguir até o fim e até passar batido por elas, nada disso vai fazer alguém desistir da leitura.

O único momento que achei menos divertido foi a cena do fantasma na ponte. Excetuando a tensão no clímax da história, A velha casa na colina é um livro tranquilo e não tenta dar sustos no leitor. No geral é uma história de suspense bem estruturada, com um pontual dramalhão sentimental neste ou naquele diálogo e enredo de fácil assimilação. Não vai muito além disso. 



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sexta-feira, 29 de julho de 2016

Impressões: Coisas frágeis 1, de Neil Gaiman

Peguei este livro para curar uma ressaca literária e ele só a intensificou. Passei dois meses ou mais sem ler ou escrever qualquer coisa, e sempre que o pegava para retomar o ânimo ele me afundava mais na preguiça de estar entre palavras. Minhas impressões sobre Coisas frágeis 1, de Neil Gaiman, logo abaixo.



Os nove contos de Coisas Frágeis trazem Gaiman abordando os mais diversos temas, misturando puberdade, punk rock e ficção científica em "Como Conversar com Garotas nas Festas"; combinando o Sherlock Holmes de sir Arthur Conan Doyle com o terror de H. P. Lovecraft em "Um Estudo em Esmeralda"; extrapolando o mundo de Matrix em "Golias", inspirado no roteiro original do primeiro filme; ou mesmo presenteando a filha mais velha com um conto fantástico sobre um clube de epicuristas em "O Pássaro-do-Sol". Coisas Frágeis é um tratado prático de como escrever boas histórias - histórias que, como diz a introdução do livro, "duram mais que todas as pessoas que as contaram, e algumas duram muito mais que as próprias terras onde elas foram criadas". 


Um estudo em esmeralda é uma história divertida, fiel à estrutura narrativa e ritmo que consagraram Sherlock Holmes no mundo da ficção policial. O "esmeralda" do título remete aos deuses antigos criados por Lovecraft, que na história são mostrados através de referências um pouco menos destacadas. Neil Gaiman une esses elementos para contar a busca de um detetive e seu companheiro pelo assassino de um membro da realeza. Um ótimo conto, sob qualquer perspectiva, mas especialmente apreciado aos que conhecem as fontes inspiradoras. Eu, que sou fã extremista e declarado de Lovecraft e Doyle, só posso dizer que terminei a leitura com um riso delicioso no rosto. Recomendarei sempre.

A vez de Outubro é um conto muito bom, que mostra a reunião dos meses do ano ao redor de uma fogueira para contar histórias e desenvolve, na fala de Outubro, a fuga de casa de um menino descontente. Fiz muitas ligações com O oceano no fim do caminho (também conta a história de um menino perturbado e é o melhor romance do Gaiman, na minha opinião), e provavelmente por conta disso fui destacando uma coisinha ou outra para criticar. No geral, a história é interessante, mas fiquei com aquela impressão de ser alinhada demais com o público que partilha das tristezas do menino. Acho que o adulto que se envolveu demais com a história precisa realmente tomar tenência e resolver suas inseguranças, de uma vez por todas. Isso soa insensível, mas é sincero; o conto tem muita cara de mensagem pastoral, foi impossível não associar Outubro com a voz forte e suave daqueles pastores que pregam em quadros noturnos das rádios, tentando motivar os que caíram em desgraça.

Lembranças e tesouros é um caos. Conto cheio de coisas soltas e apressadas que, tal qual fiz quando li Lugar nenhum, tive a boa vontade de relevar "por ser Neil Gaiman". Mais à frente tem outro conto com Smith e Alice, e espero gostar mais, pois nesta história eles não me envolveram nem um pouco - e mesmo assim foram as melhores coisas que tirei da narrativa desordenadamente desconexa.

Os Fatos no Caso da Partida da Senhorita Finch é um conto divertido, despretensioso, cheio de bons personagens e com a adição da popular ideia da "Londres abaixo", aqui representada por um circo que se apresenta em galerias abandonadas do metrô. Não há muito mais o que dizer, é um conto muito bom. Recomendado!

O Problema de Susan é o maior sonífero que já experimentei. Por duas semanas tentei e falhei em chegar à quarta página. Gostaria de dizer que esse conto é uma bosta, mas por polidez vou dizer que Neil Gaiman estava possuído por Morfeu quando o escreveu.

Golias é um conto interessante contado no universo Matrix. Não lembro muito dele, mas é bom.

Como Conversar com Garotas em Festas é um caso interessante. Começou maravilhosamente, me empolgando com a voz narrativa do protagonista e a situação proposta, mas lá pelo meio (quando a festa acontece) há uma página lotada de referências regionais que me lembrou muito o que li de Stephen King e, imediatamente depois, tudo se transformou numa narrativa louca. Talvez haja algum simbolismo na parte final, e se alguém souber justificar o porquê da história ter ficado como ficou, me explique para eu poder tirar proveito do que se iniciou como uma ótima história e degringolou completamente com a aparição das amigas de Stella.

O Pássaro-do-Sol é um bom conto e leva a impressão digital do autor em sua narrativa: a história é carregada de infantilidade e pontualmente joga ganchos para o leitor adulto lembrar-se de que é adulto. Em geral prefiro quando ele faz isso com alguma justificativa, como por exemplo haver personagens crianças na trama (o que não é o caso aqui, e houve a incômoda dúvida sobre a história ser direcionada a crianças ou adultos, que afeta diretamente a suspensão de descrença), mas não prejudica o conto em seu todo. Terminei de ler querendo muito ver um curta animado baseado nele.

O Monarca do Vale é sequência de Deuses americanos e se assemelha demais com ele. No final, inclusive, me perdi quando começa a batalha, tal como aconteceu quando li o romance, mas fora isso não tenho o que reclamar. Ótimo conto e um excelente reencontro com Shadow.



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terça-feira, 3 de maio de 2016

Impressões: Deuses esquecidos, de Eduardo Kasse


A obra do post de hoje tomou forma pelas mãos de Eduardo Kasse, e é o segundo romance da série Tempos de Sangue: Deuses esquecidos. O primeiro romance já foi comentado aqui no blog.



Deuses Esquecidos é o segundo romance da Série Tempos de Sangue, de Eduardo Kasse, e narra a história de Alessio, um camponês temente a Deus que se tornou imortal contra a própria vontade.
Em uma Itália governada pela incontestável Igreja Católica, com seus dogmas e imposições, Alessio se vê em um grande dilema: depois de ser transformado em um bebedor de sangue, ainda teria chance de obter a Salvação?
Enquanto segue em busca de respostas, deixando à própria sorte a mulher e o filho, percorre caminhos tortuosos pela Europa medieval contando com a ajuda de um monge glutão e preguiçoso que também precisa expiar os seus próprios pecados.
Durante essa jornada fantástica, sua alma sempre estará envolta por sombras. Se reais ou imaginárias, só o tempo poderá dizer.


Não faz muito tempo que li O andarilho das sombras, e a grande surpresa ao começar Deuses esquecidos foi justamente ver que não se tratava de uma sequência direta (devido ao final do primeiro livro, que deixa clara a presença de Harold Stonecross em futuras histórias). No lugar do vampiro sanguinário, temos Alessio di Ettore, um vampiro de origem campesina, bastante ligado à sua fé católica. A natureza do personagem aglutina conflitos suficientes para torná-lo um personagem mais interessante desde o começo, mas não para por aí. As relações entre os personagens, a confusão e o espírito mais aventuresco e de descoberta da história deixam o livro muito mais receptivo que o anterior. Harold definitivamente não é meu malvado favorito, Alessio ganhou com facilidade.

A narrativa é segmentada, mudando de Alessio como narrador nas passagens que conta sua trajetória, para um narrador impessoal e onisciente, que toma a voz nas cenas em que Alessio não participa. Não vi problema com isso, mas leitores desatentos talvez precisem se preparar, pois a mudança é abrupta, e não estar preparado para este tipo de estilo pode gerar frustrações, eu sei por experiência própria. Deixando essa característica de lado, a trama é bem simples e direta, não abrindo espaços para malabarismos de roteiro, o que tem seu lado bom e ruim: o plot é pé no chão, não desperta a empolgação que virou quase um requisito para romances de fantasia depois da disseminação dos manuais de escrita criativa, mas a história ainda tem o viés histórico do cenário, que pode ser um bom escudo para justificar a "seriedade" do livro. Afinal, uma fantasia histórica carregada de terror não precisa ser cheia de apelo juvenil, precisa?

A escrita permanece gostosa de se ler, apesar de ter notado um menor refinamento vocabular. A história ficou mais acessível, e isso pode não ter sido intencional, já que o primeiro livro é muito maior que este, tendo mais espaço para explorar rebuscamento. O problema sério mesmo é o das vírgulas, que aparecem onde não devem e não estão onde deveriam estar (nas ocasiões de vocativo, principalmente) e em determinadas passagens, sem motivo algum, a narrativa muda o passo natural para uma sequência de frases curtas como versos de poesia. O que parece ter sido colocado para gerar efeito só gerou estranheza na leitura, além de destoar esteticamente nas páginas em que ocorre.

Por fim, vale destacar que o tema se encaixa muito bem na história, e ela desperta um sentimento ruim no leitor; as palavras afetam, de fato, quem as estão lendo. Todos os personagens são ruins, e os que não são no início, terminam por se corromper. Não há espaço para torcer e vibrar, o tom do livro é muito negativo, e é possível que algumas decisões tenham sido tomadas levando isso em consideração. A coisa chega a um ponto em que um abade no fim da idade, reconhecido (e demonstrado na história) como tendo um bom coração, destrói suas convicções por muito pouco, até descaracterizando toda a pesquisa histórica feita para o livro, pois transforma uma pessoa do clero, estudada e confiante da sua fé, num semi-analfabeto destes cultos de garagem, que lê a bíblia uma vez e a interpreta no furor do culto. A cena final do abade não só é forçada, mas destrói o personagem para manter o aspecto sombrio do livro. Deuses esquecidos fecha mais um capítulo de Tempos de sangue de forma coesa, podendo até ser lido separadamente; um ótimo ponto nesta época de megassagas cheias de volumes que iniciam muitas coisas e encerram poucas.

O que gostei:
O ritmo é muito bom, e a leitura não cansa.
A escrita é funcional na maior parte do tempo e agradável de se ler.
Cada personagem cativa a seu modo, e possuem seus próprios desejos e problemas.
Não tem como não gostar de Alessio.

O que não gostei:
Além do aspecto físico, a personalidade de TODOS é estereotipada. É possível adequar cada um em seu arquétipo sem qualquer variância de traços. Os simulacros são tão patentes no personagens que é fácil associar cada um a outro personagem medieval já existente na cultura pop.

Considerações finais:
Deuses esquecidos segue a linha da série e já estampa no título o que o primeiro livro só revela no final. É uma expansão de universo bem feita e, eu diria, até mais agradável que a obra anterior. Haja o que houver após o segundo livro, Alessio e Harold continuam firmes, fortes e com histórias sólidas em seu passado. Que venha mais sangue e mais esclarecimentos sobre o destino destes dois.


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segunda-feira, 25 de abril de 2016

Abandono e desistências


Post só para registrar o que deixarei de ler e o livro que larguei em 50%.



O que abandonei foi A luneta âmbar, de Philip Pullman. A leitura não estava agradável, muita coisa sendo jogada e inventada do zero, apesar de ser a sequência que pretendia encerrar a trajetória de Lyra. Tive uma decepção também com Iorek, que perdeu sua fúria viking, seu comprometimento espartano pela lei do mais forte, e virou um personagem precavido ao ponto de demonstrar covardia. Gostaria muito de chegar até o final para conferir a tal crítica à ICAR, mas a narrativa não me permitiu. O livro deve ser herético só pela menção a Deus ser explícita, já que há umas controvérsias tanto escolásticas quanto metafísicas (exemplo: a associação do pecado a um pó cósmico e a concepção de que o corpo físico seria mais forte que o espiritual, respectivamente); ou então por ser um livro destinado ao público infantil, então "qualquer perigo vira um grande perigo". Não sei e não vou descobrir, pois a vontade de ir até o fim ACABOU. Há boatos de uma série chegando, então espero que siga os livros, assim saberei certinho o motivo do debate sobre a religião.


As minhas desistências se devem à temática dos livros. Estou saturado e chateado com as coisas que tenho lido, mesmo as boas, pois tudo gira sobre temas ruins, coisas depressivas ou apenas mensagens desanimadoras. Eu quero mudar isso e vou priorizar leituras inspiradoras, com temas positivos. Vou terminar Deuses esquecidos do Eduardo Kasse, mas depois dele, só vou ler obras que façam um pouco mais feliz. Infelizmente, a maioria das obras que estavam na sequência de leitura são de autores brasileiros, e vou acabar deixando eles de lado, mas FAZER O QUÊ? (De qualquer jeito, já comprei estes ebooks, então possa ser que no futuro eu venha a lê-los).


   

  






sábado, 9 de abril de 2016

Impressões: Sentimentos à flor da pele


O livro de hoje é uma coletânea de contos financiada coletivamente. Reúne alguns dos principais nomes da podosfera literária, com cada um tomando um sentimento como tema para contar sua história. Apoiei o projeto, mas minha contribuição maior acho que vem agora, depois da capa e sinopse.



Acostumados a discutir literatura, 10 podcasters literários – dos programas 30:MIN, CabulosoCast, LivroCast, LiterárioCast e Drone Saltitante – tiveram de escolher sentimentos e transformá-los em personagens dominantes de seus contos. O resultado é um livro pequeno, mas como dito em uma frase de Sandman: “Algumas coisas são grandes demais para serem vistas. Algumas emoções enormes demais para serem sentidas".



Aquele terno maldito e aquele maldito gato, de Anna Schermak narra a prisão e escapada de uma mulher das mãos de traficantes de mulheres. O ritmo é acelerado e a narrativa gruda rápida no leitor, com excelentes descrições materiais e psicológicas. O refinamento da escrita flutua ao longo dos parágrafos, com frases muito bem pensadas, e outras sem relevo algum, mas no geral, por conta da sensação de perigo que a escrita passa,  essas não geram desinteresse. Atentei para alguns sentimentos de esperança e vingança, mas no geral, o pujante na história é o medo, e acredito que ele tenha sido tema do conto. Há uma analogia muito inteligente na história, que acaba perdendo sua força por conta de uma frase próximo ao fim, tirando uma característica interessante do conto.


O bosque da depressão, de Andrey Lehnemann fala sobre um bosque através de metáforas, analogias esquisitas e referências no mínimo confusas. O vocabulário é amplo, porém usado de forma solta, sem enriquecer a a estrutura atrapalhada da narrativa, e dá a impressão de ser fruto de uma busca em um dicionário de sinônimos, em vez de usado para fortalecer contexto. Admito que cheguei ao fim sem ter ideia de que sentimento devia ter sentido ao ler, até que "solidão" foi citado, e me pareceu algo que se encaixaria. Em apreciadores de poesia, talvez, esse conto possa gerar algum vínculo, mas não me agradou.


Existe amor na rua Paiquerê, de Cecília Garcia Marcon narra o relato de um mendigo pintor que se apaixonou por uma transeunte. A narrativa é inteligente, prazerosa, sem espaços para o leitor se distrair com outras coisas. O amor platônico do mendigo, mesmo exagerado, é de uma construção impecável. Apesar do mistério apresentado ao final, o conto segue uma linha tão natural que eu sou obrigado a dizer que Existe amor na rua Paiquerê é uma crônica perfeita.

Mais uma bomba caiu no meu jardim, de Domenica Mendes apresenta o dia-a-dia de uma mãe num mundo distópico (ou quase lá). Os elementos de construção de cenário são os pontos fortes: os termos são genéricos, o que é uma escolha acertada para um conto curto, e sinalizam para o leitor que há algo além do que é visto nas cenas descritas. Cheguei à última página completamente perdido sobre o tema do conto, pois a história não me passou sentimento algum (pelo contrário, percebi a ausência de sentimentos), e na última página a citação da "apatia" me abriu os olhos. Ela é a minha aposta para o tema. Acho difícil não ser isso, pois há uma cena muito apelativa no conto, e a única explicação do que segue à cena, é a apatia da personagem principal.

Sua herança, de Igor Rodrigues, começa com uma frase memorável. Discutindo relações de fidelidade, amor próprio e decepção raivosa, o conto tem diálogos fortes e uma trama sem grandes atrativos, porém simples e coerente, até certo ponto. Uma súbita mudança de comportamento motivada por ódio não convence, e a aparição de um personagem foi tão jogada na trama que tirou todo o sentido da leitura; impressionou a protagonista, sim, mas muito mais o leitor, que se decepciona com o desleixo de como a situação foi montada. Há também alguns erros de digitação que passaram na revisão, e uns equívocos com as vírgulas. O tema me pareceu ser o ódio, mas ele também não convence.

O grande duelo, de Jefferson Figueiredo, é mais uma história de vingança, dessa vez sobre um homem que decide matar o ex-amigo por conta de uma mulher do passado. A escrita é fluída e a história não desestimula o leitor, mas não enxerguei atrativos. Há diversas referências ao cinema de faroeste, e os entusiastas podem ver algo mais no conto, mas não creio que vá acelerar o coração de ninguém. Há uma pegada de noir em alguns parágrafos,  porém tudo que disse aqui foram observações avulsas, de elementos que não integram o todo da história, de forma que eu terminei sem fazer a mínima ideia de qual foi o tema selecionado pelo autor na hora de escrever. Não é ruim, mas é bastante esquecível.

N. A. (Nostálgicos Anônimos), de Lucas Rafael Ferraz, é um conto de mistério. Um esquisito grupo de apoio serve de porta de entrada para conhecermos um pouco sobre Vitória e sua luta com um trauma antigo e persistente. O background é intencionalmente deixado de lado, e o leitor precisa se apegar à aflição de da personagem quanto a um evento até simples, mas que consegue prender a atenção e estimular a curiosidade. Parabéns ao autor por conseguir tanto mostrando tão pouco, é um mérito difícil de ser alcançado. O sentimento-tema, apesar de não ser escancarado no enredo, só pode ser a nostalgia mencionada no título, e faz todo o sentido.

Onde não deveria estar, de Marcelo F. Zaniolo, usa uma narrativa rápida e gostosa de se ler para contar a superação de um menino contra seus medos. A história narra um causo, praticamente, haja visto que tudo começa e termina em poucos minutos. A natureza do medo do garoto é boba e difícil de acreditar; chegou a me causar estranheza, mas acabei aceitando após concluir que se trata de um conto infantil - e só cheguei a essa resolução após terminar e pensar sobre o que tinha acabado de ler, de maneira alguma a escrita ou a situação geral é infantilizada.

Ratos em sangue, de Mateus Lins possui o estilo de escrita mais distinto do livro, o que não impediu o defeito do excesso de permear, de maneira grave, o texto do início ao fim. O enredo não tem propósito até o último ou penúltimo parágrafo do conto, e quando aparece, não chega a convencer. As coisas são jogadas, os elementos não se encaixam, o conto realmente não brilha pelo que está contando. É o tipo de texto que impressiona pela maneira que transmite as ideias, por meio da narração e da descrição, e é por isso - pelo traquejo com a palavra escrita - que parabenizo o autor. Não vislumbrei o sentimento-tema.

Peixe fora d'água, de Vilto Reis, começa com a irritante narrativa no presente para contar a velha história do filho contra o pai autoritário, que para fechar o estereótipo, é um cristão fervoroso e irredutível (se captei bem, é testemunha de Jeová). A escrita possui um tom coloquial muito forte, e a narrativa passa longe de ser convencional, o que não necessariamente é ruim - é quase como um retrato contemporâneo dos textos curtos em português. O tema parece ser algo como submissão/opressão.


Antes de encerrar o post, vou deixar a relação dos sentimentos utilizados pelos autores para construir os contos (eles são revelados ao fim do livro). Os que estão em negrito e itálico são os que eu acertei. Respectivamente: solidão, depressão, obsessão, apatia, raiva, ódio, nostalgia, medo, escapismo, poder.




domingo, 3 de abril de 2016

Impressões: Horror na colina de Darrington, de M. V. Barcelos


Recebi o livro autografado e acompanhado de um material espetacular de divulgação, o que me deixou com uma ótima impressão inicial. Minha opinião sobre o romance de estreia de M. V. Barcelos vem logo abaixo da sinopse:


Horror na Colina de Darrington


Você acredita em fantasmas? Ben Simons é um rapaz órfão de 17 anos que vai para a casa dos tios ajudar a cuidar de sua priminha Carla após a tia ter sofrido um derrame. Apesar da infeliz situação de tia Julia, Benjamin esperava que a Colina de Darrington fosse um lugar de certa tranquilidade. O que encontra, porém, é uma trama de terror e sangue, cujo único propósito é a conquista de um poder absoluto e inimaginável por meio de forças malignas. A casa esconde segredos terríveis e sombrios. Conheça os caminhos mais tortuosos da mente humana e descubra até que ponto alguém chega para salvar a vida de um ente querido neste intrigante amálgama de suspense e terror sobrenatural. Onde termina o inferno e começa a realidade? Junte as peças e descubra. Sem dúvidas, esta é uma história para aqueles que não têm medo do escuro e de todo o mal que nele habita.


Horror na colina de Darrington é uma novela de poucas páginas e enredo intenso, feita na medida certa para ser lida de uma vez só. A narrativa em primeira pessoa, quase epistolar, se alterna em alguns momentos com matérias de jornais, relatórios policiais e até transcrições de documentário, fazendo da história uma espécie de quebra-cabeças, um mistério policial a ser desvendado. Particularmente essa é um estrutura de enredo que gosto muito, e aqui só abrilhantou o suspense do livro, seu ponto mais forte. A confusão de Ben, ao se dar conta de fenômenos sobrenaturais e dos presságios que eles anunciam, é crível e a identificação com o personagem é quase imediata, apesar do pouco que sabemos dele. E da mesma maneira, sem muitos aprofundamentos em passado (ou mesmo características físicas), é possível formar a imagem de cada um dos personagens na trama.

O número reduzido de pessoas ajuda, mas é o papel de cada um na história que define o perfil e fixa sua imagem na cabeça do leitor, e não digo isso à toa: cada evento que ocorre é um choque, um degrau de escadaria para que possamos saciar nossa vontade de ver o desfecho. Não há espaço para tergiversar, e essa concisão foi um dos pontos altos do livro. A narrativa é direta, os cenários são poucos e são poucos agentes, mas as informações são muitas, abalando a descrença de Ben e levando-o numa sequência de escolhas difíceis e contagiando o leitor por tabela.

O ponto fraco do livro são os diálogos. Apesar das falas de Carlinha serem bem construídas (que são mais fáceis de criar, por serem de uma criança pequena), o resto dos personagens segue uma linha diretiva que não oscila, e todos parecem falar e agir da mesma maneira, independente de idade, papel na trama ou sexo. O mais evidente disso está nas conversas de Ben com uma personagem feminina, da idade dele e estranhamente formal no linguajar.

Horror na colina de Darrington é uma história rápida para quem gosta de suspense, ação, ocultismo e teorias da conspiração. Recomendo e desejo ver mais do autor, com certeza.