segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Impressões: O dragão de gelo, de George R. R. Martin


Este é o primeiro post de uma leva vultosa de Impressões de obras curtas que pretendo ler este ano. Após estabelecer uma meta de leitura, notei que seria impossível cumpri-la se todas as leituras fossem romances de cerca de 400 páginas, então juntei o útil ao agradável: já estava nos meus planos diminuir a lista de quadrinhos pendentes, bem como ampliar a quantidade de autores brasileiros no meu rol de lidos, e que oportunidade melhor para realizar essas minhas vontades, senão unindo as leituras curtas de HQs e contos à meta anual? Pois bem, muitas das próximas postagens de impressões serão sobre hqs e contos, a maioria de BRs. Agora, sem mais delongas, vamos à minha opinião sobre o conto infantil (será?) do autor das Crônicas de gelo e fogo. Sinopse abaixo.

O Dragão de Gelo


O Dragão de Gelo - O dragão de gelo era uma criatura lendária e temida, pois nenhum homem jamais havia domado um. Quando sobrevoava o mundo, deixava um rastro de frio desolador e terras congeladas. Mas Adara não tinha medo. Pois Adara era uma criança do inverno, nascida durante o frio mais intenso de que alguém tinha memória. Adara não se lembrava de quando viu o dragão de gelo pela primeira vez. Parecia que a criatura sempre estivera em sua vida, avistada de longe enquanto ela brincava na neve gelada durante muito tempo depois de as outras crianças terem fugido do frio. Aos quatro anos ela o tocou, e aos cinco montou no dorso imenso e gelado do dragão pela primeira vez. Então, aos sete anos, em um dia calmo de verão, dragões de fogo vindos do norte desceram sobre a fazenda pacífica que era o lar de Adara. E apenas uma criança do inverno e o dragão de gelo que a amava poderiam salvar o seu mundo da completa destruição.


Estou meio incomodado de fazer esta resenha, pois não acredito que haja muito que falar além do que já é dito na sinopse, a não ser opinar sobre. E como não quero ficar enrolando, vou efetivamente retirar a parte em que falo da trama e dar logo meu veredito: É BOM. Eu não tenho a mínima vontade pessoal de começar a ler a série literária principal do Martin, por ainda não ter um final, e por preguiça (sério, eu vejo o tamanho dos livros e penso logo na quantidade de meses que levarei para ler tudo E AINDA NÃO VER O FINAL DA HISTÓRIA!!!). Mas a pressão social exige, e por causa dela, volta e meia eu dou uma follheada na livraria, ou pelo menos fico admirando as capas, só por desencargo de consciência.

Eis que me surge o tal conto! O Jorge Martins lançou algo curto, rápido e fechado! Agora sim, eu poderia ler algo do velho e acabar com o peso na minha consciência, afinal como é que eu poderia, enquanto escritor de fantasia, não ter lido NADA do indubitavelmente mais famoso autor vivo do gênero? Exato, e lá fui eu ler o tal conto, com expectativas muito esquisitas (pois não era o que eu devia estar lendo para sanar a minha expectativa original). Eu peguei o livro, sentei no sofá, e poucas horas depois - duas, talvez - eu tinha concluído. E o livro é bom! A escrita é boa! E é uma história tão simples e rápida que nem vale a pena explicar, apenas vão e leiam durante o tempinho que a fila do banco não anda.

Esse post está tão mixuruca que eu preciso até falar mal um pouco do livro. Não tenho realmente um motivo para isso, mas não sei, acho que se a história fosse boa ao ponto de eu não ter nada para falar mal dela, eu simplesmente abriria o Blogger e escreveria maravilhado parágrafos e mais parágrafos, e cá estou eu enrolando para ver se o post rende. E é por isso que agora vou falar mal da história de Adara: ela não é impressionante demais. Você vê o que acontece com ela ao nascer e crescer, seu cotidiano, sua família. Tudo é bonito, bem escrito, mas fica por aí, você não vai se surpreender com o livro. Acho que após chegar a esta conclusão forçada, já posso fechar o post: este é o ponto fraco do livro, não me impressiona o quanto deveria! Mas se eu fosse uma criança - como a história gostaria que eu fosse - isso seria diferente?




sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Impressões: O oceano no fim do caminho, de Neil Gaiman



Para fechar o mês de Janeiro, a mente criadora de Sandman: Neil Gaiman e seu mais recente livro, O oceano no fim do caminho. Vamos à sinopse:

O Oceano no Fim do Caminho

Este livro é tanto um conto fantástico como um livro sobre a memória e o modo como ela nos afeta ao longo do tempo. A história é narrada por um adulto que, por ocasião de um funeral, regressa ao local onde vivera na infância, numa zona rural de Inglaterra, e revive o tempo em que era um rapazinho de sete anos. As imagens que guardara dentro de si transfiguram-se na recordação de algo que teria acontecido naquele cenário, misturando imagens felizes com os seus medos mais profundos, quando um mineiro sul-africano rouba o Mini do pai do narrador e se suicida no banco de trás. Esta belíssima e inquietante fábula revela a singular capacidade de Neil Gaiman para recriar uma mitologia moderna.

Diferente de muita gente, não sou arrebatado por tudo que o Neil Gaiman escreve, embora eu gostar minimamente de tudo que leio dele. Talvez a 'primeira vista' - Sandman - tenha marcado demais minhas expectativas, e sempre que eu busco algo novo dele, vou achando que vai ser tão bom quanto. Infelizmente esse desejo meu nunca se concretizou. Oceano é o livro mais pessoal do autor, e de fato há um realismo denunciante nas passagens descritivas, mas a declaração de Gaiman sobre sua relação com o livro pode ter um peso maior nesta percepção, já que, em MUITOS aspectos, a narrativa se vale dos elementos comuns que fizeram Neil Gaiman ser quem é. A tristeza quase apática do enredo, gatos e três mulheres de importância cósmica, é preciso algo mais para Gaiman misturar e criar uma ótima história? Talvez portas.

Oceano carrega o leitor para uma memória britânica bucólica do menino sem nome, e a habilidade de escrita de Neil Gaiman evoca rapidamente aquela identificação demasiadamente sentimental que nos leva a reflexões e memórias próprias. O nível de semelhança, entretanto, pode se tornar também o ponto fraco da narrativa. As particularidades da personagem principal são tão específicas que podem não surtir efeito nas pessoas que não passaram por situações parecidas. Neil Gaiman fez o livro para adultos leitores, aqueles que nutrem desde a infância o amor pelas histórias maravilhosas da ficção e possuem a mente criativa dos entusiastas literários. E quem não é assim, vai gostar do livro? Provavelmente, afinal não gostamos apenas dos presentes destinados a nós.

O plot, que é uma mistura espiritual de Coraline e Caçadas de Pedrinho, nos leva à construção simples de Gaiman, sem muitos rodeios linguísticos, mas satisfatória em criar aquela atmosfera cinzenta. Suicídio, possessão, fantasia e sonhos que escapam do território onírico são apenas alguns elementos na grande aventura que espera quem tem coragem de revisitar a própria vida.

O que gostei:
- Atmosfera do enredo criada com maestria
- Personagens interessantes
- Muita informação subtendida

O que não gostei:
- O livro tem muita fantasia em meio a muita realidade. O desnorteamento é grande em algumas passagens
- Algumas atitudes de personagens são muito extremadas. Apesar de não ser irreal, surge algum desconforto ante reações tão inesperadas

Considerações finais:
A ruazinha misteriosa é o único cenário do livro, mas por suas bordas e entremeios, o menino introvertido e o leitor vão se descobrir muito mais fracos do que imaginavam. Sim, fracos; Oceano quebra aquela quase obrigação de seguir a jornada do herói dos livros de fantasia. Dizer mais que isso seria tentar preparar alguém para o imprevisível. Mergulhe no oceano.




Impressões: Extraordinário, de R. J. Palacio


A terceira leitura de janeiro foi um livro leve, rápido e marcante. Extraordinário, de R. J. Palacio foi a história que iniciou a autora como escritora, e se provou um fenômeno de críticas e vendas. Vamos à sinopse:

Extraordinário

August Pullman, o Auggie, nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma severa deformidade facial, que lhe impôs diversas cirurgias e complicações médicas. Por isso ele nunca frequentou uma escola de verdade... até agora. Todo mundo sabe que é difícil ser um aluno novo, mais ainda quando se tem um rosto tão diferente. Prestes a começar o quinto ano em um colégio particular de Nova York, Auggie tem uma missão nada fácil pela frente: convencer os colegas de que, apesar da aparência incomum, ele é um menino igual a todos os outros.

Narrado da perspectiva de Auggie e também de seus familiares e amigos, com momentos comoventes e outros descontraídos, Extraordinário consegue captar o impacto que um menino pode causar na vida e no comportamento de todos, família, amigos e comunidade - um impacto forte, comovente e, sem dúvida nenhuma, extraordinariamente positivo, que vai tocar todo tipo de leitor.

A sinopse é certeira contando a premissa e primeiros acontecimentos do enredo. Conhecemos Auggie, um menino de 10 anos bem resolvido com sua situação delicada, mas superprotegido. Descobrimos que por trás da personalidade calejada e quase madura do menino, ele guarda as mesmas inseguranças infantis que a idade reserva. Apreensão, revolta com a feiura e a constante sensação de estar sendo observado são sensações que se repetem durante todo ponto de vista de Auggie, e cativam tanto ao ponto de não percebermos que Auggie é tão observador e analítico quanto os demais. A mente imatura é muito bem trabalhada e a linguagem é simples de modo a fazer as páginas voarem em poucos minutos.

A estrutura de capítulos curtíssimos e abundância em diálogos são o principal fator da fluidez, além da já citada linguagem simples - o vocabulário chega a ser coloquial, na maioria do livro. Os capítulos são agrupados em visões particulares, fazendo com que a trama possa ser, em alguns casos específicos, revisitada por olhos diferentes, mas em geral a troca de personagem-narrador não implica retrocesso dos eventos, garantindo uma narrativa linear.

O trabalho de voz para as personagens é coerente, e cada uma que serve de guia para o leitor age e narra de modo específico, um detalhe trivial, mas que enriquece a história e, principalmente, facilita a identificação do leitor com cada uma.

O que gostei:
- Simplicidade da escrita, que combina com a trama
- O enredo é bonito, a história cativa
- O preconceito é o tema principal, mas não parece forçado em momento algum

O que não gostei:
- Como todas as obras do estilo Slice of Life, a trama pode soar chata ou sem propósito
- A impressão de autoajuda disfarçada é patente, em certos momentos

Considerações finais:
Simples, didático, emocionante e sem refinamento vocabular e narrativo, Extraordinário nos lembra a razão da gentileza ser tão importante e necessária no dia-a-dia. Em tempos de politicamente correto, o livro ensina que ser bom com os semelhantes - e os diferentes - é uma virtude, e que a nossa conduta gentil deve se pautar não em medo de processo ou pena dos outros, mas sim pelo simples fato de ser o certo a se fazer.





sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Próximas leituras: primeiro semestre 2015


Trazendo as leituras pendentes do semestre passado, incluí as leituras que tentarei completar no primeiro semestre de 2015. Tentei misturar clássicos com os da moda com alguns independentes. Lembrando que posso pegar outros livros, mas deixo aqui o registro pra manter um norte nas minhas escolhas. Lembrando que já li 2 livros em 2015 e estou avançado em O idiota e Extraordinário. Sinto que este ano será proveitoso.




Impressões: A Liga dos Artesãos, de Lauro Kociuba


O ano segue forte nos independentes, e o livro da vez aqui no blog é o primeiro da série Alvores, do paranaense Lauro Kociuba: A liga dos artesãos. O livro passou por um caminho árduo até ser finalizado, mas felizmente o Lauro conseguiu por meio do financiamento coletivo atingir seu objetivo; e o resultado foi um sucesso não só para ele, a produção nacional de fantasia ganha MUITO com a entrada dele no cenário. Vamos à sinopse:


A Liga dos Artesãos (Alvores Livro 1)

O que você sabe sobre elfos, orcs e humanos? 
Abra a mente. Estou abrindo as portas de um mundo novo para você, e é bom começar a rever seus conceitos. Suas certezas são questionáveis, o inesperado sempre é certo e a dúvida não é uma opção. 
Elfos, anões, orcs, trolls, dragões, wargs… E se eles existiram de verdade? E se tudo começou a desaparecer quando a Era dos Homens teve início? E se, ainda hoje, houver remanescentes desses seres entre nós? 
Alvores é uma ideia de realidade alternativa, com inspiração em Neil Gaiman e sua conexões de fantasia e o mundo real. A ideia é explorar o nosso mundo mesclando com ficção fantástica, onde exitem cidades subterrâneas sob as capitais brasileiras; elfos que vivem ocultos entre os homens; descendentes de raças lutando entre si e criaturas fantásticas surgindo e desaparecendo em meio a pontos turísticos. 
Todo esse universo é chamado de Alvores, os seres que surgiram na alvorada do mundo. 
Este primeiro volume é ambientado em Curitiba. Acompanhamos Tales, um filho de encantados, desvendando sua história envolta a uma trama secular: a luta pela sobrevivência de uma raça. Entre batalhas dos descendentes de alvores, a descoberta de existência de uma cidade inteira sob seus pés e a verdade por trás de vários fatos. 
O leitor irá, junto com o protagonista, conhecer máquinas de guerra incríveis, personagens com habilidades curiosas, tramas e mistérios ocorrendo nas praças, terminais ou mesmo nas ruas onde passamos diariamente. De modo gradativo e embasado, trabalho para estreitar a fronteira entre a realidade e a fantasia no livro. 
Veja o mundo com outros olhos!

Lauro Kociuba faz parte da escola de Tolkien, um filão específico dentro da já concorrida produção fantástica nacional (que também precisa vencer o apelo da concorrência internacional) e não faz feio. Transpondo o universo mágico de orcs, anões e elfos para Curitiba, ele nos apresenta a incursão de Tales, um encantado (descendente de criaturas mágicas), numa aventura com ótimo ritmo, linguagem amigável e surpresas que deixam um gostinho de 'quero mais' no leitor após encerrar a leitura.

O livro sofre da quase onipresente fraqueza dos livros que iniciam sagas de fantasia: ter de apresentar o cenário ao passo que desenvolve uma trama que inexoravelmente não vai se fechar. E a história se fecha, mas há tanto deixado para a continuação que o ponto final se torna insuficiente; a impressão que fica é que o que se passou foi apenas um subplot. Trama deixada de lado, a escrita é um aspecto magnífico, com vocabulário bom, frases bem montadas e um estilo direto com ritmo estimulante; o leitor é carregado pelas páginas sem nem sentir as palavras correndo pelos olhos. As personagens são interessantes, apesar de engessadas - o que não podia ser diferente de uma estrutura de fantasia já consolidada há tantos anos - e cada uma tem seu papel a cumprir no enredo. Sinto até que não apareceu nenhuma personagem terciária, sendo as mais distantes apenas secundárias aguardando seu momento de brilhar na continuação da saga. Cada uma delas tem seu jeito simpático, mas se há algo a se apontar negativamente, é a apresentação dos anões: eles são muitos, parecidos demais e com nomes ou parecidos entre si, ou de difícil memorização. Em uma parte mais avançada do livro cheguei a ignorar os nomes de alguns e me lembrava de quem eram pelas ações que executavam.

As descrições são variáveis. por um lado, o autor manobrou bem com as palavras para colocar tudo detalhadamente no papel sem ficar enfadonho - isso se nota muito bem nas descrições de armas e locais imaginários - entretanto o lado real da coisa ficou muito vago. Entendo que há um contexto de representar a capital do Paraná, e que qualquer um pode ver o cenário exato buscando o nome da rua/bairro no google, mas uma pessoa que nunca vistou Curitiba a passeio (leia-se eu) fica jogado nas cenas da cidade sem muito recurso imaginativo. Nem precisaria descrever com detalhes como foi feito na parte subterrânea, apenas menções mais consistentes do que existe no local já bastaria.

O que gostei:
Escrita fluída e notavelmente bem trabalhada.
Ritmo alucinante.
Personagens bem definidos.
Diálogos bons.
Descrições da parte fantástica.

O que não gostei:
Nomes de fantasia confusos.
O livro é o começo de algo maior.
Descrição de Curitiba poderia ser mais desenvolvida.
Senti um incômodo inexplicável no entre-cenas/capítulos. Parecia faltar algo ali.

Considerações finais:
Alvores promete. A liga dos artesãos traz um enredo bem conduzido, personagens carismáticos e uma escrita sensacional. Num Brasil onde a fantasia publicada segue uma explosão impulsionada por questões de demanda, Lauro Kociuba oferta uma pérola e mostra que escrita independente também pode ser de alto nível.





sábado, 3 de janeiro de 2015

Impressões: O Tesouro de Caularom, de Lívia Stocco


Chegou 2015 e, com ele, novas leituras e análises. O primeiro livro do ano é MISTBORN MELHORADO O tesouro de Caularom, da autora nacional Lívia Stocco (já resenhei 2 livros dela aqui no blog: Bhardo 1 e Bhardo 2). O conto foi uma ótima leitura, rápida e cativante, com todos os elementos necessários para satisfazer qualquer leitor de fantasia. Links para o trabalho da autora CLIQUE AQUI!!!
Vamos à sinopse:


O Tesouro de Caularom: Contos de Bhardo
Plúnio nasceu em berço de ouro e é herdeiro da coroa de Darfindor, reino que escraviza os indarae, que viviam nas florestas. Mas sua vida e suas escolhas são afetadas pelo proibido e desesperado amor pela bela Landell, escrava que guarda um segredo que pode mudar o destino de todos. 
Esta é a história do Tesouro de Caularom, um dos sete Objetos Supremos.



A sinopse é curta e define o mote da história, sem muitos rodeios e com honestidade. Existe o drama amoroso entre nobre e escrava e existe o poder misterioso que ajudará os escravos na rebelião contra a opressão. Não há pretensão em revolucionar o uso da fantasia na literatura, mas de entregar uma história interessante, bem construída e verossímil para o leitor, e nisso o conto se sai muito bem. O universo da história é o mesmo dos outros livros da autora, e se encaixa sem causar confusões (até pela história se passar muitos anos antes da época dos romances principais), mas não há ônus algum em pegar o livro para uma leitura independente. Para estes leitores iniciantes, há apresentação de cenário geográfico, personagens e background dos povos envolvidos na trama.

A linguagem é excelente! Narração e descrição são muito bem dosadas, alternando-se no texto com diálogos bem escritos (leia-se: respeitando nuances de cada personagem e seus trejeitos) e fluídos. Por ser um conto, algumas (poucas) passagens dão a impressão de superficialidade, de tão rápidas, porém essa impressão é compensada pelo ótimo ritmo que leva o leitor pelos capítulos, que não são muito curtos nem chegam a ser longos.

A se destacar no enredo, a questão do preconceito foi colocada de maneira magistral. É muito fácil abordar este tema e cair num proselitismo desnecessário e ofensivo ao leitor que já tem maturidade, e a Lívia percorreu um caminho muito inteligente: tocou na questão racial com força, inclusive  explicitando o povo negro e sua dificuldade, mas sem se prender a isto como única forma de expressão deste mal; afinal, o preconceito é um mal que atinge qualquer um, desde que o preconceituoso esteja numa posição favorável a exercê-lo. A questão étnica não é novidade no trabalho da autora, e com O tesouro de Caularom ela continua fazendo um trabalho maravilhoso neste âmbito.

Dos três trabalhos da autora, acho que este é o mais abrangente em termos de público. Os dois livros principais de Bhardo me deixam a impressão de infantojuvenil muito maior que O tesouro de Caularom, e este, apesar de também ter o mesmo público-alvo, me agradou sem que eu precisasse ficar me lembrando que era um infantojuvenil a cada capítulo. Só em algumas passagens - como personagem X estar buscando Y e o achar com uma facilidade duvidosa, ou a masmorra para tortura de escravos se localizar convenientemente acessível por um salão comum na casa do protagonista - me fizeram lembrar que a história é primariamente voltada para mais jovens.

O que gostei:
- Personagens bem construídos
- Cenário bem apresentado
- Trama coerente
- Linguagem fluída
- História divertida

O que não gostei:
- O ebook não possui índice ativo

Considerações finais:
O tesouro de Caularom é uma experiência bastante prazerosa, que cumpre seu papel de ampliar o universo de Bhardo e enriquece a literatura fantástica brasileira com uma qualidade criativa ímpar. Eu quero mais.






quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Impressões: Cidadão 8.5.1, de Rob Stalisz

Mais uma leitura de autor independente. Entrei no mundo distópico (ou utópico?) do autor Rob Stalisz, e viajei numa tortura mental de arrepiar os cabelos. Conheçam Cidadão 8.5.1.



Sinopse:
Guiados pelo Avisor Pessoal, uma fantástica máquina especializada em cuidar de cada cidadão, aquela sociedade parou de pensar, parou de questionar, parou de se preocupar com que devia sentir. A vida se tornou muito mais fácil, tudo estava completamente simplificado. Todos seguiam um padrão e a felicidade, seja lá o que isso fosse, finalmente foi alcançada. É nessa sociedade idealizada que vive Sonesen Smith, um conceituado cientista com uma importante missão: desenvolver um revolucionário equipamento, capaz de simplificar ainda mais o modo de viver. Porém, uma estranha experiência o colocará em conflito, mudando completamente o rumo de sua vida ao rasgar a cortina ilusória que cobre aquele modelo social, revelando aquilo que poderia ser a verdade, ou apenas o delírio de um homem.
Uma história perturbadora, repleta de reflexões sobre a forma como as pessoas aceitam passivamente os moldes sociais em que estão inseridas, evitando lutar pela decisão de suas vidas, em um mundo de dependências tecnológicas. Um livro incomum. Um mergulho profundo numa espiral de loucura, num futuro utópico e dissimuladamente controlado.


Em Cidadão 8.5.1 acompanhamos o Dr. Sonesen Smith em sua pacata vida numa cidade cinzenta e monótona, que parece funcionar com precisão milimétrica. Sendo um agente de importância ímpar numa indústria de tecnologia, o personagem principal cede seu ponto de vista como guia à narrativa em terceira pessoa e tomamos conhecimento de como funciona tudo naquele mundo distópico, onde os computadores programam e regulam todas as atividades humanas, que são executadas sem contestação.

Após uma crise emocional recente, devido ao insucesso profissional em uma disputa com o laboratório concorrente, Sonen começa a destoar do comportamento ideal, e suas atitudes se revelam cada vez mais perigosas para a manutenção da sociedade perfeita. A narrativa se entrelaça no ponto de descontrole do personagem enquanto o mesmo ingressa numa pesquisa que visa exatamente o contrário: a solução definitiva para suprimir as emoções e garantir o adestramento humano.

A história tem um início modorrento, que combina com a ambientação do lugar que o leitor passa a conhecer, e casa muito bem com o clima do enredo, mas talvez esse marasmo dure mais do que devia: a agitação só aparece depois da metade do livro, o que pode deixar o leitor um tanto desmotivado com a história; para intensificar essa falta de ritmo, o livro possui um vocabulário bem limitado e abusa de adjetivações esquisitas, propositadamente colocadas antes do sujeito ou objeto, que soam forçadas em vários momentos – essas características também melhoram na metade final do livro, mas não chegam a desaparecer.

A visão política é muito explorada no enredo, deixando claras as convicções do autor, que critica não só nuances reais da sociedade, como também aspectos ideológicos, com algumas alegorias, até. A carga psicológica do personagem principal é bastante aprofundada, mas o clima varia de insatisfação com a vida a momentos de pleno desespero. Cidadão 8.5.1 definitivamente não é uma história alegre, de superação e salvação, é um romance denso, que leva o leitor para uma sociedade chata e desesperançada.

O que gostei:
- Dilemas vivenciados pelo personagem principal
- Idealização da cidade perfeita
- Críticas sociais bem atuais

O que não gostei:
- Erros gramaticais e ortográficos, desde flexão de verbos ao uso inapropriado de substantivos e crase
- Utilização de adjetivos
- Vocabulário muito básico: “grande” aparece adjetivando dezenas de vezes, e muitos objetos nomeados e substantivos são usados de forma genérica
- O autor faz uso vasto de metáforas, algumas delas fazendo referência a magia, sacralidade, épocas primitivas da humanidade; de alguma forma isto quebrou o clima futurista e tecnológico da narrativa, mais do que o intensificou (o que provavelmente era a intenção)

Considerações finais:

Cidadão 8.5.1 é um bom livro, com um enredo interessante e um clima agradável de filme dos anos 60, mas que sofreu com a falta de revisão e um estilo de escrita incipiente. Por ser o primeiro livro do autor, talvez isso possa ser melhorado em obras futuras, considerando que o problema foi realmente falta de experiência.