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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Impressões: Madame Bovary, de Gustave Flaubert


Mil anos depois da última resenha, apareço após a leitura de uma dezena de mangás (de One Piece) para redigir mais um texto de impressões. Neste post, retorno aos clássicos para conhecer o trabalho de Gustave Flaubert, em Madame Bovary, um romance amplamente aclamado e até mencionado em certos círculos como o melhor romance de todos os tempos (tendo sido, inclusive, a expressão "bovarismo" criada a partir do livro). Vamos lá, porque já enrolei demais.




"Texto de suma importância, Madame Bovary é uma leitura essencial, sendo considerado um dos melhores romances da literatura, sendo, provavelmente, o melhor dos livros do romance realista de caráter psicológico do século XIX. Para mostrar seu mundo, Flaubert põe em cena uma personagem em total desacordo com sua realidade, com sua posição social e com seu sexo. É nessa personagem que se centrarão as ações desenvolvidas na narrativa e os principais dilemas da obra. O enredo gira em torno de Emma Bovary, casada com o médico Charles. Emma vive imersa na leitura de romances românticos e, por viver um casamento enfadonho, procura no adultério a libertação de seus problemas. A trama possui um desfecho trágico, e da criação de Flaubert partem grandes linhas de força do romance moderno e sua repercussão no contexto literário francês e mundial é intensa e permanente."



Após puxar o saco um pouquinho, a sinopse apresenta o pano de fundo com fidelidade e chega a insinuar o desfecho, algo que afastaria logo de cara alguns leitores que conheço; como o livro tem mais de um século, deixemos o repúdio ao spoiler de lado, até por conta do fundamento que destaca a obra das demais: a profunda beleza da arte literária na construção da realidade. É claro que há toda implicação decorrente do teor do enredo, ainda mais para a sociedade da época, mas não é do meu feitio expor aqui no blog o desenrolar político, social ou autoral dos livros que leio, e dessa forma permanecerei. Me ausentar da discussão mais acalorada sobre o livro, no entanto, não me priva dos melhores predicados da obra. Porque, ainda que a mulher adúltera tenha sido o furor que evidenciou Madame Bovary, foi o próprio talento literário de Flaubert que deu substância ao tema.

Charles e Emma Bovary formam o casal protagonista do livro. Ele, um homem simplório, permanece sempre devotado a uma vida de conforto básico e emprego da vida cotidiana, apresentando um medo constante do que pode se apresentar fora dela. Ela, uma sonhadora, não chega a ser uma pessoa de ambições - o que bastaria para contrastar com o marido - porém nunca deixou de acreditar que fosse merecedora de muito mais, seja no âmbito econômico quanto no afetivo e emocional. Sua reverência aos mundos intensos das histórias de ficção transformou Emma em alguém incapaz de aceitar a realidade que a cercava. Passagens que considero extremamente precisas para delinear as duas personagens, deixo abaixo.


"Acertava sobretudo com os catarros e as doenças de peito. Tendo muito receio de matar os doentes, Charles, realmente, pouco mais receitava do que calmantes, de quando em quando um emético, um escalda-pés ou sanguessugas. Não é que tivesse medo da cirurgia; sangrava abundantemente as pessoas, como se fossem cavalos, e tinha um pulso de ferro para arrancar dentes".

"Contava histórias, dava-lhes novidades, fazia-lhes recados na cidade e, às mais crescidas, emprestava, em segredo, alguns romances que trazia sempre nos bolsos do avental e dos quais ela mesma devorava longos capítulos nos intervalos das suas ocupações. Tratavam só de amores, de amantes, senhoras perseguidas desmaiando em pavilhões solitários, postilhões assassinados em todas as paragens para trocar de animais, cavalos abatidos em todas as páginas, florestas sombrias, perturbações do coração, juramentos, soluços, lágrimas e beijos, barquinhos ao luar, rouxinóis nos bosques, cavalheiros valentes como leões, mansos como cordeiros, mais virtuosos do que aqueles que realmente existem, sempre bem apresentáveis e chorando como urnas".


Sim, as aspirações de Emma são mágicas e desproporcionais, e para enrijecer ainda mais a característica de sonhadora dela, há na primeira parte do livro uma situação de desejo entre ela e León, jovem escriturário da cidadezinha, que não chega a se consumar. Ele parte em busca das oportunidades da cidade grande, deixando seu amor platônico para trás e Emma, que correspondia o sentimento, se viu completamente destruída, de modo que segue uma passagem para exemplificar o seu estado após a partida de León:


"Entretanto, as chamas aplacaram-se, ou porque as reservas por si mesmas se exaurissem, ou porque o amontoamento fosse demasiado grande. O amor extinguiu-se, pouco a pouco, pela ausência e a saudade foi sufocada pelo hábito; aquele clarão de incêndio que lhe tingia de púrpura o céu pálido cobriu-se de mais sombras e extinguiu-se gradualmente".


Os humores de Emma se transformam mediante as expectativas, mais que por qualquer outra coisa. Fosse uma linda história de amor inventada num livro, fosse o próprio amor batendo à sua porta com o nome de León, para ela valia mais o sentimento que ela projetava que propriamente o que acontecia a si. Isso fica bem evidente mais para frente, quando ela se torna adúltera e aquilo a enche de alegria, mas que, com o tempo, mesmo a felicidade afetiva consumada não lhe causa mais impressão, de maneira que sua busca pelo imaginário a impele a forçar uma fuga com Rodolphe, o amante, que imediatamente se dá conta de que estava a lidar com uma biruta.

Mas largando adultérios e desilusões para o lado, passo para o aspecto que mais me abalou no livro: a escrita do autor. Não sendo um autor contemporâneo, há que se observar algumas lombadas, mas em nenhum momento senti o enfado que Balzac algumas vezes me proporcionou, por exemplo. O estilo não se ausenta e nas mais variadas passagens é possível ver o talento absurdo com a prosa literária. Separei um diálogo rápido que encena toda uma situação e uma descrição de um rápido gesto, para que se perceba que na escrita de Flaubert não há percalços. 


"Tem razão - interrompeu o boticário -, há o reverso da medalha! É preciso andar sempre com a mão a segurar a carteira. Em Paris, por exemplo, está-se num jardim público e aparece um fulano, muito apresentável, condecorado até, que se poderia tomar por um diplomata; apresenta-se, estabelece-se a conversação; ele insinua-se, oferece uma pitada, apanha-nos o chapéu que caiu. A gente toma mais confiança, ele leva-nos ao café, convida-nos a ir à sua casa de campo, entre dois cálices apresenta-nos a uma quantidade de pessoas e, durante três quartas partes do tempo, não faz senão explorar-nos a bolsa ou levar-nos a dar passos perniciosos".

"Rodolphe apertava-Lhe a mão e sentia-a muito quente e trémula, como uma rola cativa que quer retomar novamente o voo, mas, ou porque tentasse desprendê-la, ou então porque estivesse correspondendo àquela pressão, ela fez um movimento com os dedos; e ele exclamou: - Oh!, obrigado! Vejo que não me repele! É muito bondosa!"


Ainda que existissem descrições espaciais ou visuais que hora ou outra me deixassem desejoso pelo seu fim, elas não foram desnecessárias, pois concretizaram o cenário e toda a cena narrada. Posso dizer que meu desgosto por elas são mais por questão de eu mesmo não conhecer algumas particularidades de vestimenta ou de estética parisiense da época, e tenho certeza que, para um leitor dedicado a imaginar visualmente a narrativa do livro, elas se provam bastante úteis. E são bem curtas, para dizer a verdade; mas como eu queria dizer algo sobre descrições, fica essa "alfinetada". As descrições psicológicas, que são maioria, eu já nem preciso me esbaldar em elogios, por isso destaco mais uma das percepções de Emma:


"Para Emma, desprendia-se qualquer coisa de vertiginoso daquelas existências amontoadas, inundando-lhe abundantemente o coração, como se as cento e vinte mil almas que ali palpitavam lhe enviassem, todas ao mesmo tempo, o vapor das paixões que ela lhes atribuía. O amor avolumava-se-lhe diante do espaço e enchia-se de tumulto com rumores vagos que subiam".


Eu não consigo pensar em mais o que dizer sobre Madame Bovary. Não vou elencar os pontos que gostei e não gostei, porque o conjunto da obra ficou PERFEITO e, na minha leitura, é indissociável. Deixo aqui para finalizar, um trecho que demonstra a capacidade de sucintez desse mestre da literatura, narrando uma cena de quando Emma resolve chutar o balde e trair a rodo o corno Charles.


"A partir daquele momento, a sua vida não foi mais que uma coleção de mentiras, em que envolvia o seu amor como que em véus, para o esconder. Era uma necessidade, uma mania, um prazer, de tal maneira que, se ela dissesse que passara no dia anterior pelo lado direito de uma rua, tinha de se entender que passara pelo lado esquerdo. Uma manhã em que acabara de sair, segundo o seu costume, com uma roupa bastante leve, começou repentinamente a nevar, e, como Charles estivesse à janela a observar o tempo, viu o padre Bournisien na carruagem do senhor Tuvache, que o ia levar a Ruão. Saiu então a confiar ao eclesiástico um grande xaile para que ele o entregasse a Emma quando chegasse à Cruz Vermelha. Logo que chegou à estalagem, Bournisien perguntou onde estava a mulher do médico de Yonville. A estalajadeira respondeu que ela frequentava muito pouco o seu estabelecimento".


Considerações finais:
Posso contar nos dedos de uma mão, as vezes que terminei algo e quis chamar de OBRA-PRIMA. Madame Bovary foi assim.





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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Impressões: O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger


Minhas impressões sobre a obra mais célebre de J. D. Salinger, o polêmico O apanhador no campo de centeio. Capa, sinopse e minha reação a seguir.



Um garoto americano de 16 anos relata com suas próprias palavras as experiências que ele atravessa durante os tempos de escola e depois. Revela o que se passa em sua cabeça. O que será que um adolescente pensa sobre seus pais, professores e amigos?


Livro espetacular! Nem vou fazer comentários, pois não me sinto capaz para a tarefa, o livro é pura psicologia. Narrado em primeira pessoa, ele reproduz exatamente o que muita gente é (especialmente hoje em dia com a geração depressão) e que outros só são em alguns momentos da vida. Holden Caulfield é deprimido, insatisfeito, prepotente e covarde; covarde ao ponto de não virar um personagem revoltadinho que certamente estragaria a história, como esse tipinho sempre faz. Fico mesmo devendo uma análise melhor, mas não sei expressar em resenha todas as sacadas geniais que peguei (várias vezes) durante a leitura. Deixo abaixo alguns quotes que marquei no Kindle.


Depois que eu disse a ela que tinha um encontro marcado, não podia mesmo fazer droga nenhuma senão sair. Nem podia ficar por lá para ouvir o Ernie tocar alguma coisa minimamente decente. Mas não ia de jeito nenhum sentar numa mesa com a Lillian Simmons e com aquele cara da Marinha e morrer de chateação. Por isso saí. Mas fiquei danado quando apanhei meu sobretudo. As pessoas estão sempre atrapalhando a vida da gente.
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- Tá bom - eu disse. Era contra meus princípios e tudo, mas eu estava me sentindo tão deprimido que nem pensei. Esse é que é o problema. Quando a gente está se sentindo muito deprimido não consegue nem pensar.
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Mas morei com ele uns dois meses, apesar de toda a chatura, só porque ele assoviava bem pra burro. Por isso, tenho minhas dúvidas quanto aos chatos.
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O mais engraçado é que, na hora que a vi, me deu uma bruta vontade de casar com ela. Sou biruta. Nem ao menos gostava muito dela e, apesar disso, de repente, me senti como se estivesse apaixonado e quisesse casar com ela. Juro por Deus que sou biruta. Reconheço.




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sexta-feira, 19 de junho de 2015

O Valor dos Inúteis



Por coincidência ou não, as minhas duas últimas leituras (são os livros das duas últimas resenhas, 'O castelo das águias' e 'O idiota') refletiram bastante em pensamentos que venho tendo há uns bons dois anos, e ambos me incentivam a seguir a minha visão inicial sobre um determinado assunto: personagens. No meu comentário sobre OCDA, apontei a quantidade de personagens e a dificuldade de me situar em meio a tantos que não se relacionavam diretamente com a trama - apesar de achar o modelo de construção impecável, sob a perspectiva de criador. Tanto é que eu mesmo fiz a mesma coisa em 'O homem sem signo'; não é difícil ver leitores que acharam complicada a trama abarrotada de gente, ou até os chamando de inúteis - e no início eu ficava tentado a argumentar com os leitores, tentando mostrar a função dos tais personagens no livro, ainda que o papel deles fosse mínimo no enredo principal. 


De fato, esta percepção me deixava tão incomodado, na época, que o livro seguinte, 'A pedra celestial', foi montado de maneira oposta. A ideia geradora da sequência já tinha como base ser uma obra mais voltada para o gosto do público leitor de fantasia brasileiro, e cada criação nova era aplicada no roteiro de maneira a atender as demandas desta classe demográfica, então a decisão de retirar o contingente caiu como uma luva. Como autor independente, e pela proposta que tive na minha inserção no mundo da escrita de fantasia, também era válido transformar a minha escrita, pois este é o objetivo principal da 'Trilogia A lança dourada', exercitar minha escrita de formas variadas num contexto ficcional fantástico. E deu certo: APC é um livro muito mais elogiado, as leitoras, especialmente, demonstraram um apego com a história praticamente inédito, e aqui estou eu me questionando sobre o desenvolvimento do terceiro livro da saga.

O estilo de escrita do terceiro livro será uma combinação de elementos de OHSS e APC mais algumas coisinhas que aprendi com o feedback dos leitores dos dois livros. Uma das coisas é a criação de personagens, e no último livro seguirá o modelo do primeiro. É mais complicadinho, pode gerar revoltas, mas é o que eu considero correto. Não quero menosprezar a opinião de quem leu e amou APC, pelo contrário, não há presente melhor para um escritor que ver seu texto apreciado, mas assim é a arte, precisa ser genuína. O terceiro livro vem aí, e vai vir muita gente com ele!


Antes de ir, acho de bom tom deixar aqui o trecho de 'O idiota' que faz menção à questão de função dos personagens na narrativa, tendo de certa forma uma mensagem consonante com a estrutura encontrada em OHSS e OCDA. Acho que é mais recomendável fazer isso que indicar a leitura do livro inteiro, especialmente após eu tê-lo criticado tanto (mas Dostoiévski continua sendo amor, SEMPRE!). Esta passagem se encontra no primeiro capítulo da quarta parte do livro.


"Todavia a pergunta fica de pé: que fará um autor com gente comum, absolutamente “comum”, e como há de colocá-la diante do leitor tornando-a interessante? É de todo impossível deixá-la fora da ficção, pois essa gente do lugar-comum é, a todo momento, o principal e indispensável anel da cadeia dos negócios humanos. Se os deixarmos de fora perdemos toda a verossimilhança com a realidade. Encher uma novela completamente só com tipos, ou melhor, querer torná-la interessante mediante apenas caracteres estranhos e incríveis será querer torná-la irreal e até mesmo desinteressante. A nosso ver, um escritor deve procurar a torto e a direito enredos interessantes e instrutivos mesmo entre gente vulgar; Quando, por exemplo, a natureza mesma de certas pessoas vulgares reside justamente em sua perpétua e invariável vulgaridade, ou melhor ainda, quando, apesar de todos os mais estrênuos esforços para fugir à órbita da mesmice e da rotina, essa gente acaba por se sentir invariavelmente ligada para sempre a essa mesma rotina, então tal gente adquire um caráter sui generis, todo seu, o caráter da vulgaridade, desejosa acima de tudo de ser independente e original sem a menor possibilidade de o conseguir.
A essa classe de gente “vulgar” ou “comum” pertencem certos personagens da minha narrativa que até aqui, devo confessar, foram insuficientemente explicados ao leitor".



segunda-feira, 1 de junho de 2015

Impressões: O idiota, de Fiódor Dostoiévski


Após dois anos e meio, finalmente concluí a leitura de O Idiota, definitivamente o livro mais controverso no meu kindle. Vamos à sinopse + resenha.


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O Idiota - Dostoiévski é considerado o maior escritor russo de seu tempo. É autor de várias obras-primas. O Idiota começou a ser redigido em 14 de setembro 1867 em Genebra, Suiça, e foi concluído a 25 de janeiro de 1868, em Florença, Itália. A obra teve uma elaboração difícil e torturada. Em meio às piores dificuldades, foi escrita e reescrita muitas vezes até a redação definitiva. A obra foi inspirada na figura de Dom Quixote, de Cervantes. O Idiota é, talvez, o romance mais típico de Dostoiévski, provocou perplexidade nos meios intelectuais da época. a obra foi elogiada por Tolstoi, que a achou de grande força dramática e beleza literária.


O desejo de ler O Idiota e qualquer outra obra de Dostoiévski é compreensível, dado o meu arrebatamento após a leitura de Notas do Subsolo, do mesmo autor, que é meu livro favorito (o primeiro lugar, o inalcançável, aquele livro que mudou minha visão sobre leitura). E muito do que se vê em O idiota é o mesmo que encontrei no referido livro: um enorme trabalho de psicologia nas personagens, de forma intensa e reveladora, alinhado a discussões filosóficas profundas e reflexivas, ainda que essa conduta exija, por consequência inevitável, um esforço menor nos aspectos de trama. E esse não é o problema! Diariamente saem milhares de livros novos, bem escritos, pautados em técnicas conhecidas e fórmulas comprovadas; não é isso que eu buscava em O idiota. Pouco me importa pontos de virada, ritmo, riqueza de descrições. Eu quero CONFLITOS! E é o que mais há no livro, e mesmo assim eu abandonei a leitura duas vezes, dando um tempo de meses entre elas, para enfim pegar uma terceira e finalizar. Eu achei o que queria, mas porque não foi tão proveitoso? A resposta eu consegui achar, e só posso dizer que é o tamanho do livro.

Notas do subsolo é um livro curto; agressivo, contundente. Maravilhoso, mas curto. O idiota, pelo contrário, é um calhamaço disfarçado pela falsa espessura do kindle. As divagações, a narrativa, a eloquência de cada personagem, tudo é exposto com o brilhantismo esperado do russo, mas as doses são cavalares, e irremediavelmente vem junto o tédio, o cansaço, a vontade de apressar a leitura. Some-se isso aos nomes russos, complicados por natureza para um brasileiro - além do fato de Dostoiévski empregar sobrenomes, apelidos e abreviações de nomes, tantos que só na terceira leitura consegui memorizar todos - e uma trama praticamente inexistente (sendo, com efeito, apenas uma sucessão de cenas burguesas e conversas grupais), eu não tenho outra opção a não ser reconhecer que meu autor favorito, mesmo brilhante, consegue ser enfadonho e nem um pouco amigável.

Sobre a trama, não há muito o que se dizer, pois ela é mínima e também o que menos importa, de um ponto de vista macro. Tanto é que nem a sinopse do livro se dignou a falar algo sobre, acho que isso encerra bem este ponto e me leva aos quesitos finais do meu comentário sobre o livro.

O que gostei
- O estilo de escrita do autor já é um diferencial e um convite ao livro
- A narrativa é assertiva em quase sempre, deixando poucas chances de haver confusão
- O príncipe, como personagem e como figura de um ideal
- As discussões sobre política, fé, moralidade e relações humanas

O que não gostei
- A trama que vai de nada a lugar nenhum
- Os cenários são sete, no máximo
- Embora inevitável para o nível de detalhes apresentado, a prolixidade é um agravante ruim

Considerações finais
Com uma importância ímpar na carreira do autor, na minha visão o romance custou muito para entregar o que deveria, e é, numa recomendação bem otimista, um esforço para poucos. Mas, mesmo com todos os aspectos ruins, ele ainda traz em si boas discussões, magistralmente apresentadas, inclusive. É um livro que vale a leitura de um fã determinado, mas não fará ninguém se apaixonar arrebatadoramente pelo estilo do autor.





sábado, 28 de fevereiro de 2015

Impressões: Um homem superior, de Machado de Assis


Seguindo uma decisão que tomei, aqui vai mais uma resenha curta de um conto; muitos posts consecutivos virão desta forma, e provavelmente só em Abril retomarei o estilo tradicional, resenhando romances.
Este conto não estava na minha lista de leitura, não estava no meu kindle esperando ser lido, não estava na minha cabeça sendo desejado. Eu o li porque tem o mesmo título de uma história que estou bolando há uns 4 meses e ainda não tive ânimo para escrever. Na verdade, não é EXATAMENTE o mesmo título, mas é parecido o bastante para me fazer colocá-lo no topo da lista de leitura, e assim o fiz. A minha opinião a seguir:

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Em Um homem superior, de Machado de Assis, somos impelidos pelo título a esperar uma caracterização diferente do que normalmente vemos nos personagens de Machado. Um homem forte em suas virtudes, nobre, austero, enfim, alguém superior. E o que encontramos logo na primeira página é um fodido pensando em como vai conseguir dinheiro para almoçar. O Machadão não perde a ironia um segundo sequer.

O estilo é o já conhecido do autor, em que ele deliberadamente admite estar contando uma história, e se vale desta autoridade para parar quando quer e opinar sobre o que acabou de contar. Um estilo para poucos, dominado por ele, mas que não sustenta a história sozinho; é preciso mais que o interlocutor, é preciso personagens e trama. E o conto tem isso tudo. De uma forma simples, direta e extremamente realista, acompanhamos as quedas e ascensões de um homem que não tem nada, mas pretende ter tudo. E quando uma personagem tem este tipo de pretensão, só há dois caminhos para encerrar uma BOA história: ou acaba com tudo, ou acaba de mãos vazias. É Machado de Assis escrevendo, então, dependendo de como se olha, O homem superior é encerrado com esses dois finais combinados. Quer mais ironia que isso?




sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Próximas leituras: primeiro semestre 2015


Trazendo as leituras pendentes do semestre passado, incluí as leituras que tentarei completar no primeiro semestre de 2015. Tentei misturar clássicos com os da moda com alguns independentes. Lembrando que posso pegar outros livros, mas deixo aqui o registro pra manter um norte nas minhas escolhas. Lembrando que já li 2 livros em 2015 e estou avançado em O idiota e Extraordinário. Sinto que este ano será proveitoso.




terça-feira, 22 de julho de 2014

Próximas leituras, segundo semestre de 2014


Terminei de ler A Jornada de um Herdeiro - A adaga de dois gumes, da Vanessa Nilo; nos próximos dias postarei minha opinião sobre ele. Enquanto o lia, iniciei A faca sutil e Mistborn. Por enquanto sem opinião formada sobre eles, mas estou achando que A faca sutil não será tão bom quanto A bússola de ouro.

Espero gostar dos livros desse semestre, e de algum jeito, terminar todos (incluindo os 2 que ainda não escolhi), a tempo para ler mais uns 2 ou 3.







sábado, 17 de maio de 2014

Impressões: O processo, de Franz Kafka


Voltando a uma opinião sobre um clássico, pois nem só de best seller ou independente se faz minha lista de leitura. E o livro da vez é O Processo do famosão Kafka, cujos livros eu não conhecia até então. Li a edição da Companhia de Bolso, traduzida por Modesto Carone, que aliás, merece os parabéns, gostei muito do trabalho que ele fez. Sem delongas, vamos à sinopse.



'Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.' Assim começa um dos maiores romances do século XX. E começa também o drama do protagonista de 'O processo', que luta do começo ao fim para descobrir do que é acusado, quem o acusa e com base em que lei. Josef K. sempre confrontará a impossibilidade de escolher um caminho que lhe pareça sensato ou lógico, pois o processo de que é vítima segue leis próprias, as leis do arbítrio. O labirinto exemplarmente 'kafkiano' do qual Josef K. tentará se desvencilhar traduz um sentimento que nos diz muito - o de que a razão pode pouco contra a banalidade da violência irracional.

Bom, como eu não conhecia nada do Kafka, a leitura foi uma verdadeira descoberta, e em sua maioria, positiva. O começo é truncado, e demorei para me acostumar com as passagens de longos parágrafos - certas divagações chegam a se estender por 2 páginas até alcançar o ponto parágrafo - mas assim que me acostumei com a linguagem, o livro se tornou deveras interessante. A história é contada por cenas separadas, e apesar de eu não ter achado isto tão estranho, fui bisbilhotar o posfácio e descobri que o livro sequer está terminado. Sim, o autor morreu antes de terminar a obra, e ela foi montada pelos escritos dele; não tenho nada contra, inclusive gostei do livro, mas podia estar evidenciado na sinopse, ou com alguma nota nas primeiras páginas.

Continuando: o livro destaca algumas cenas de Joseph K., procurador de um banco que se vê detido e descobre que é alvo de um processo, de natureza desconhecida, e que mesmo assim é levado em altas instâncias de uma estrutura judiciária obscura e curiosa. O livro, mesmo não completado, possui um fim, e ainda que a falta de certas passagens tenham deixado a história sem pé nem cabeça, o que vale mesmo é a crítica do autor à burocracia e uma boa dose de realismo intrincado em situações bizarramente fantasiosas, que acabam sendo muito divertidas, especialmente pela caracterização primorosa que Kafka dá aos personagens. Não é um livro para qualquer um e é muito recomendado para estudos literários, mas ainda sim eu consegui me entreter com a história, mesmo não tendo a bagagem teórica para captar tantas críticas escondidas - no entanto tomei conhecimento das mesmas lendo o já mencionado posfácio.

O que gostei:

Caracterização de personagens
Linguagem bastante singular, mas que se torna fácil sem muito esforço

O que não gostei:

Faltaram as partes que o autor não escreveu =P
As longas sentenças podem se tornar confusas, uma vez ou outra

Considerações finais:

O livro não é longo, e mesmo com bastante simbolismo, a história é interessante. A leitura se torna surpreendentemente rápida, apesar do estilo verborrágico, especialmente nos diálogos, e a personalidade de K. é sã o suficiente para segurar o leitor no mundo de loucuras que é palco de O Processo.