sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Próximas leituras: primeiro semestre 2015


Trazendo as leituras pendentes do semestre passado, incluí as leituras que tentarei completar no primeiro semestre de 2015. Tentei misturar clássicos com os da moda com alguns independentes. Lembrando que posso pegar outros livros, mas deixo aqui o registro pra manter um norte nas minhas escolhas. Lembrando que já li 2 livros em 2015 e estou avançado em O idiota e Extraordinário. Sinto que este ano será proveitoso.




Impressões: A Liga dos Artesãos, de Lauro Kociuba


O ano segue forte nos independentes, e o livro da vez aqui no blog é o primeiro da série Alvores, do paranaense Lauro Kociuba: A liga dos artesãos. O livro passou por um caminho árduo até ser finalizado, mas felizmente o Lauro conseguiu por meio do financiamento coletivo atingir seu objetivo; e o resultado foi um sucesso não só para ele, a produção nacional de fantasia ganha MUITO com a entrada dele no cenário. Vamos à sinopse:


A Liga dos Artesãos (Alvores Livro 1)

O que você sabe sobre elfos, orcs e humanos? 
Abra a mente. Estou abrindo as portas de um mundo novo para você, e é bom começar a rever seus conceitos. Suas certezas são questionáveis, o inesperado sempre é certo e a dúvida não é uma opção. 
Elfos, anões, orcs, trolls, dragões, wargs… E se eles existiram de verdade? E se tudo começou a desaparecer quando a Era dos Homens teve início? E se, ainda hoje, houver remanescentes desses seres entre nós? 
Alvores é uma ideia de realidade alternativa, com inspiração em Neil Gaiman e sua conexões de fantasia e o mundo real. A ideia é explorar o nosso mundo mesclando com ficção fantástica, onde exitem cidades subterrâneas sob as capitais brasileiras; elfos que vivem ocultos entre os homens; descendentes de raças lutando entre si e criaturas fantásticas surgindo e desaparecendo em meio a pontos turísticos. 
Todo esse universo é chamado de Alvores, os seres que surgiram na alvorada do mundo. 
Este primeiro volume é ambientado em Curitiba. Acompanhamos Tales, um filho de encantados, desvendando sua história envolta a uma trama secular: a luta pela sobrevivência de uma raça. Entre batalhas dos descendentes de alvores, a descoberta de existência de uma cidade inteira sob seus pés e a verdade por trás de vários fatos. 
O leitor irá, junto com o protagonista, conhecer máquinas de guerra incríveis, personagens com habilidades curiosas, tramas e mistérios ocorrendo nas praças, terminais ou mesmo nas ruas onde passamos diariamente. De modo gradativo e embasado, trabalho para estreitar a fronteira entre a realidade e a fantasia no livro. 
Veja o mundo com outros olhos!

Lauro Kociuba faz parte da escola de Tolkien, um filão específico dentro da já concorrida produção fantástica nacional (que também precisa vencer o apelo da concorrência internacional) e não faz feio. Transpondo o universo mágico de orcs, anões e elfos para Curitiba, ele nos apresenta a incursão de Tales, um encantado (descendente de criaturas mágicas), numa aventura com ótimo ritmo, linguagem amigável e surpresas que deixam um gostinho de 'quero mais' no leitor após encerrar a leitura.

O livro sofre da quase onipresente fraqueza dos livros que iniciam sagas de fantasia: ter de apresentar o cenário ao passo que desenvolve uma trama que inexoravelmente não vai se fechar. E a história se fecha, mas há tanto deixado para a continuação que o ponto final se torna insuficiente; a impressão que fica é que o que se passou foi apenas um subplot. Trama deixada de lado, a escrita é um aspecto magnífico, com vocabulário bom, frases bem montadas e um estilo direto com ritmo estimulante; o leitor é carregado pelas páginas sem nem sentir as palavras correndo pelos olhos. As personagens são interessantes, apesar de engessadas - o que não podia ser diferente de uma estrutura de fantasia já consolidada há tantos anos - e cada uma tem seu papel a cumprir no enredo. Sinto até que não apareceu nenhuma personagem terciária, sendo as mais distantes apenas secundárias aguardando seu momento de brilhar na continuação da saga. Cada uma delas tem seu jeito simpático, mas se há algo a se apontar negativamente, é a apresentação dos anões: eles são muitos, parecidos demais e com nomes ou parecidos entre si, ou de difícil memorização. Em uma parte mais avançada do livro cheguei a ignorar os nomes de alguns e me lembrava de quem eram pelas ações que executavam.

As descrições são variáveis. por um lado, o autor manobrou bem com as palavras para colocar tudo detalhadamente no papel sem ficar enfadonho - isso se nota muito bem nas descrições de armas e locais imaginários - entretanto o lado real da coisa ficou muito vago. Entendo que há um contexto de representar a capital do Paraná, e que qualquer um pode ver o cenário exato buscando o nome da rua/bairro no google, mas uma pessoa que nunca vistou Curitiba a passeio (leia-se eu) fica jogado nas cenas da cidade sem muito recurso imaginativo. Nem precisaria descrever com detalhes como foi feito na parte subterrânea, apenas menções mais consistentes do que existe no local já bastaria.

O que gostei:
Escrita fluída e notavelmente bem trabalhada.
Ritmo alucinante.
Personagens bem definidos.
Diálogos bons.
Descrições da parte fantástica.

O que não gostei:
Nomes de fantasia confusos.
O livro é o começo de algo maior.
Descrição de Curitiba poderia ser mais desenvolvida.
Senti um incômodo inexplicável no entre-cenas/capítulos. Parecia faltar algo ali.

Considerações finais:
Alvores promete. A liga dos artesãos traz um enredo bem conduzido, personagens carismáticos e uma escrita sensacional. Num Brasil onde a fantasia publicada segue uma explosão impulsionada por questões de demanda, Lauro Kociuba oferta uma pérola e mostra que escrita independente também pode ser de alto nível.





sábado, 3 de janeiro de 2015

Impressões: O Tesouro de Caularom, de Lívia Stocco


Chegou 2015 e, com ele, novas leituras e análises. O primeiro livro do ano é MISTBORN MELHORADO O tesouro de Caularom, da autora nacional Lívia Stocco (já resenhei 2 livros dela aqui no blog: Bhardo 1 e Bhardo 2). O conto foi uma ótima leitura, rápida e cativante, com todos os elementos necessários para satisfazer qualquer leitor de fantasia. Links para o trabalho da autora CLIQUE AQUI!!!
Vamos à sinopse:


O Tesouro de Caularom: Contos de Bhardo
Plúnio nasceu em berço de ouro e é herdeiro da coroa de Darfindor, reino que escraviza os indarae, que viviam nas florestas. Mas sua vida e suas escolhas são afetadas pelo proibido e desesperado amor pela bela Landell, escrava que guarda um segredo que pode mudar o destino de todos. 
Esta é a história do Tesouro de Caularom, um dos sete Objetos Supremos.



A sinopse é curta e define o mote da história, sem muitos rodeios e com honestidade. Existe o drama amoroso entre nobre e escrava e existe o poder misterioso que ajudará os escravos na rebelião contra a opressão. Não há pretensão em revolucionar o uso da fantasia na literatura, mas de entregar uma história interessante, bem construída e verossímil para o leitor, e nisso o conto se sai muito bem. O universo da história é o mesmo dos outros livros da autora, e se encaixa sem causar confusões (até pela história se passar muitos anos antes da época dos romances principais), mas não há ônus algum em pegar o livro para uma leitura independente. Para estes leitores iniciantes, há apresentação de cenário geográfico, personagens e background dos povos envolvidos na trama.

A linguagem é excelente! Narração e descrição são muito bem dosadas, alternando-se no texto com diálogos bem escritos (leia-se: respeitando nuances de cada personagem e seus trejeitos) e fluídos. Por ser um conto, algumas (poucas) passagens dão a impressão de superficialidade, de tão rápidas, porém essa impressão é compensada pelo ótimo ritmo que leva o leitor pelos capítulos, que não são muito curtos nem chegam a ser longos.

A se destacar no enredo, a questão do preconceito foi colocada de maneira magistral. É muito fácil abordar este tema e cair num proselitismo desnecessário e ofensivo ao leitor que já tem maturidade, e a Lívia percorreu um caminho muito inteligente: tocou na questão racial com força, inclusive  explicitando o povo negro e sua dificuldade, mas sem se prender a isto como única forma de expressão deste mal; afinal, o preconceito é um mal que atinge qualquer um, desde que o preconceituoso esteja numa posição favorável a exercê-lo. A questão étnica não é novidade no trabalho da autora, e com O tesouro de Caularom ela continua fazendo um trabalho maravilhoso neste âmbito.

Dos três trabalhos da autora, acho que este é o mais abrangente em termos de público. Os dois livros principais de Bhardo me deixam a impressão de infantojuvenil muito maior que O tesouro de Caularom, e este, apesar de também ter o mesmo público-alvo, me agradou sem que eu precisasse ficar me lembrando que era um infantojuvenil a cada capítulo. Só em algumas passagens - como personagem X estar buscando Y e o achar com uma facilidade duvidosa, ou a masmorra para tortura de escravos se localizar convenientemente acessível por um salão comum na casa do protagonista - me fizeram lembrar que a história é primariamente voltada para mais jovens.

O que gostei:
- Personagens bem construídos
- Cenário bem apresentado
- Trama coerente
- Linguagem fluída
- História divertida

O que não gostei:
- O ebook não possui índice ativo

Considerações finais:
O tesouro de Caularom é uma experiência bastante prazerosa, que cumpre seu papel de ampliar o universo de Bhardo e enriquece a literatura fantástica brasileira com uma qualidade criativa ímpar. Eu quero mais.






quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Impressões: Cidadão 8.5.1, de Rob Stalisz

Mais uma leitura de autor independente. Entrei no mundo distópico (ou utópico?) do autor Rob Stalisz, e viajei numa tortura mental de arrepiar os cabelos. Conheçam Cidadão 8.5.1.



Sinopse:
Guiados pelo Avisor Pessoal, uma fantástica máquina especializada em cuidar de cada cidadão, aquela sociedade parou de pensar, parou de questionar, parou de se preocupar com que devia sentir. A vida se tornou muito mais fácil, tudo estava completamente simplificado. Todos seguiam um padrão e a felicidade, seja lá o que isso fosse, finalmente foi alcançada. É nessa sociedade idealizada que vive Sonesen Smith, um conceituado cientista com uma importante missão: desenvolver um revolucionário equipamento, capaz de simplificar ainda mais o modo de viver. Porém, uma estranha experiência o colocará em conflito, mudando completamente o rumo de sua vida ao rasgar a cortina ilusória que cobre aquele modelo social, revelando aquilo que poderia ser a verdade, ou apenas o delírio de um homem.
Uma história perturbadora, repleta de reflexões sobre a forma como as pessoas aceitam passivamente os moldes sociais em que estão inseridas, evitando lutar pela decisão de suas vidas, em um mundo de dependências tecnológicas. Um livro incomum. Um mergulho profundo numa espiral de loucura, num futuro utópico e dissimuladamente controlado.


Em Cidadão 8.5.1 acompanhamos o Dr. Sonesen Smith em sua pacata vida numa cidade cinzenta e monótona, que parece funcionar com precisão milimétrica. Sendo um agente de importância ímpar numa indústria de tecnologia, o personagem principal cede seu ponto de vista como guia à narrativa em terceira pessoa e tomamos conhecimento de como funciona tudo naquele mundo distópico, onde os computadores programam e regulam todas as atividades humanas, que são executadas sem contestação.

Após uma crise emocional recente, devido ao insucesso profissional em uma disputa com o laboratório concorrente, Sonen começa a destoar do comportamento ideal, e suas atitudes se revelam cada vez mais perigosas para a manutenção da sociedade perfeita. A narrativa se entrelaça no ponto de descontrole do personagem enquanto o mesmo ingressa numa pesquisa que visa exatamente o contrário: a solução definitiva para suprimir as emoções e garantir o adestramento humano.

A história tem um início modorrento, que combina com a ambientação do lugar que o leitor passa a conhecer, e casa muito bem com o clima do enredo, mas talvez esse marasmo dure mais do que devia: a agitação só aparece depois da metade do livro, o que pode deixar o leitor um tanto desmotivado com a história; para intensificar essa falta de ritmo, o livro possui um vocabulário bem limitado e abusa de adjetivações esquisitas, propositadamente colocadas antes do sujeito ou objeto, que soam forçadas em vários momentos – essas características também melhoram na metade final do livro, mas não chegam a desaparecer.

A visão política é muito explorada no enredo, deixando claras as convicções do autor, que critica não só nuances reais da sociedade, como também aspectos ideológicos, com algumas alegorias, até. A carga psicológica do personagem principal é bastante aprofundada, mas o clima varia de insatisfação com a vida a momentos de pleno desespero. Cidadão 8.5.1 definitivamente não é uma história alegre, de superação e salvação, é um romance denso, que leva o leitor para uma sociedade chata e desesperançada.

O que gostei:
- Dilemas vivenciados pelo personagem principal
- Idealização da cidade perfeita
- Críticas sociais bem atuais

O que não gostei:
- Erros gramaticais e ortográficos, desde flexão de verbos ao uso inapropriado de substantivos e crase
- Utilização de adjetivos
- Vocabulário muito básico: “grande” aparece adjetivando dezenas de vezes, e muitos objetos nomeados e substantivos são usados de forma genérica
- O autor faz uso vasto de metáforas, algumas delas fazendo referência a magia, sacralidade, épocas primitivas da humanidade; de alguma forma isto quebrou o clima futurista e tecnológico da narrativa, mais do que o intensificou (o que provavelmente era a intenção)

Considerações finais:

Cidadão 8.5.1 é um bom livro, com um enredo interessante e um clima agradável de filme dos anos 60, mas que sofreu com a falta de revisão e um estilo de escrita incipiente. Por ser o primeiro livro do autor, talvez isso possa ser melhorado em obras futuras, considerando que o problema foi realmente falta de experiência.



quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Impressões: A trilogia Dupin, de Edgar Allan Poe


O post de hoje um livro com três histórias, se trata de A trilogia Dupin, que tecnicamente nem deveria ter entrado na minha lista de leitura. Eu estava buscando algo de terror além de Lovecraft, e fui atrás da primeira coisa de Poe que surgiu na minha frente. Acontece que este livro é muito mais policial que propriamente terror, OU NÃO, pode ser que o terror de Poe seja totalmente pautado no estilo realista e policial (acabei de googlar e descobri que sim, ele tem muito terror fantasioso, mas a ficção policial também é muito presente em suas obras). Vamos à sinopse e em seguida minha opinião:

A Trilogia Dupin

O Dupin de "os assassinatos da Rue Morgue", "O mistério de Marie Rogêt" e "A carta roubada" é um personagem impagável. Nobre falido e excêntrico, Dupin se compraz em utilizar apenas seus agudíssimos recursos de análise e dedução para desvendar crimes que deixam impotente G., o Chefe de Polícia de Paris.
A Trilogia Dupin - Os Assassinatos da Rue Morgue; O Mistério de Marie Rogêt; A Carta Roubada.

No livro, acompanhamos o relato de um homem que resolve contar como conheceu Auguste Dupin, um excêntrico e extraordinário homem com capacidade analítica fora de série. Durante sua estadia em Paris, onde residiu com Dupin, o narrador tomou parte na solução de 3 casos notórios pelo seu engendramento ou aparente impossibilidade de ocorrer. É interessante notar durante a leitura como o raciocínio de Dupin é fantástico e certeiro, analisando evidências e corrigindo sem pudor autoridades policiais e nomes da mídia parisiense. Por serem casos de assassinato, há uma dose cruel e até insensível de impessoalidade nas descrições dos corpos ou cenas de crime, mas nada que vá tirar o sono de alguém. Os personagens são pouquíssimos e quase nenhum além de Dupin é realmente explicado, o que faz sentido quando se percebe que todo o livro gira em torno da capacidade analítica dele e dos meios que usa para encontrar a verdade, algumas vezes sem sequer precisar levantar da poltrona.

As três histórias são claras, escritas com um vocabulário extenso e às vezes específico da ciência forense. O ritmo, no entanto, é inconstante, pois muito do caso analisado ou da relação entre o narrador e Dupin é interrompido para discussões sobre pragmatismo, vícios e a mentalidade analítica e probabilística na busca de solucionar crimes. Essas divagações não são enfadonhas, pelo contrário, fazem o livro ter a qualidade espetacular que apresenta, mas especificamente no segundo texto, O mistério de Marie Rogêt, tomam proporções absurdamente longas e acabam cansando a leitura, pois este conto é montado apenas com as tiras de jornais sobre o crime e as análises de Dupin em cima do que dizem os jornais e testemunhas; são páginas e páginas de agrupamento das pistas, muitas delas erradas (de propósito ou não) seguidas de longas ponderações de Dupin. O texto é bom, mas cansa tanto que cogitei largar o livro.

O que gostei
-Vocabulário rico e gostoso de ler
-Frases muito bem montadas, estilo de escrita estupendo.
-Crimes bem pensados e soluções surpreendentes
-Personagens bem descritos, ainda que Dupin e as vítimas monopolizem a atenção

O que não gostei
-O segundo conto, apesar de ser bom, é exageradamente parado, deixando várias oportunidades para um leitor não muito motivado abandonar a leitura.

Considerações finais
A trilogia Dupin é um ótimo livro, mas que o leitor precisa saber primeiro o que vai encontrar, para evitar um susto com a narrativa, que é intensa, especialmente se comparada com os livros policiais "normais", que somam mistério, ação e um pouco de aventura ao pensamento analítico, que é absoluto nesta obra de Edgar Allan Poe.



domingo, 12 de outubro de 2014

Impressões: Revista Trasgo #4


Fechando mais uma leitura da revista digital Trasgo, deixo aqui minha opinião - curta, mas sincera - sobre os contos presentes na última edição, de número 4. Vale lembrar que achei alguns erros de digitação nesta edição; não lembro de ter visto isso nas anteriores, mas mesmo assim foram apenas 3 ou 4, nada que prejudique a leitura.

Trasgo 04 - Capa - mini

O conto que abre a edição é de autoria de Gerson Lodi-Ribeiro e se chama Rendição do serviço de guarda. Esse é o conto mais longo da revista. Pelas palavras do autor, somos puxados para um universo futurista onde a ideia dos deuses astronautas é uma realidade, juntamente com um tipo de darwinismo galáctico que descambou na inevitável guerra entre dois grandes grupos de espécies de seres vivos inteligentes. A construção do conto é muito focada no cenário, relacionando a linha de tempo de alguns personagens com o desenvolvimento da raça humana na Terra, e aproveitando esse momento para expor algumas discussões filosóficas interessantes. O espaço para dar andamento ao enredo acabou sendo muito curto, se comparado ao texto do worldbuilding, mas foi executado de forma coerente e satisfatória, apresentando o problema e a solução sem muitos rodeios. Por não ser fã de FC Hard, demorei um pouco para engrenar a leitura, devido ao começo ser bastante puxado no gênero, mas depois da metade a escrita se torna bem mais rápida. Recomendo, principalmente para os fãs de FC hard.

O conto seguinte é Vivo, Morto. X.,  de Érica Lombardi. Uma história curta, urbana e, em certo grau, abstrata. Conhecemos Guilherme, um cara babaca, mas de bom coração, que topa com uma criatura sobrenatural prontinha para atormentar sua cabeça com um jogo psicológico muito perigoso. A fantasia sobrenatural do conto gira em torno da criatura, que aparece sobre a forma de uma garota chamada Ana, e desaparece assim que ela sai de cena. A autora tem uma voz bem pessoal, vale a pena memorizar o nome para uma busca futura.

O terceiro conto é Isaac, de Ademir Pascale, e foi para mim a grande decepção da revista. Cenário clichê, cenas despropositais e que não fazem sentido definem o conto. O lado bom é que o autor tem uma habilidade monumental em criar suspense, e eu acabei me interessando e lendo mais e mais, mesmo com as incongruências que apareciam a todo momento. Os elementos do conto também mostram que o autor sabe escolher peças-chave para montar uma história cativante, como o cenário apocalíptico e os habitantes com seus costumes hediondos, mas a falta de algum trabalho para diversificar esses elementos deixou tudo muito na mesmice, e os furos de roteiro deixaram a impressão de ser uma leitura para adolescentes, nada além disso.

Mary C. Muller escreve o conto seguinte: Estive assombrando seus sonhos. Conhecemos Felipe, um garoto com mediunidade, e sua rotina de convivência com fantasmas, vampiros e afins num magnífico conto infantil. O enredo trata de uma alma penada que aparece pedindo socorro de uma maneira diferente, e o garoto logo precisa da ajuda de outros seres sobrenaturais para resolver o problema da garota-fantasma. Com exceção da caracterização de Felipe com sua família e cotidiano "humano" no início do conto - que achei de um tom negativo, maduro e desnecessariamente complexo - a história é sensacional, muito divertida e recomendada para qualquer um acima de 8 anos.

O conto seguinte é Arca dos Sonhos, de Fred Oliveira. Confesso que não gostei muito, mas a escrita do autor é muito refinada; o enredo é que não tinha uma intenção muito clara do que pretendia passar. Embarcamos numa space opera com um tom de "aventura naval" bastante óbvio e emocionante, mas sem muito sentido. A tal arca parte com sua tripulação que faz parte de si, integrada mental e organicamente pela tecnologia, em busca de um destino que não se deixa claro o quê (nem para o leitor nem para os personagens), encabeçada pelo capitão sonhador, que se mantém fiel à sua vontade de realizar seu desejo nem que precise passar a eternidade inteira na busca. Talvez tenha faltado algumas páginas para estender mais o enredo e esclarecer uma coisinha ou outra, porque de resto, o conto é muito bom.

Fechando a revista com chave de ouro, Jessica Borges nos apresenta No labirinto. Conto de fantasia onírica, que já deixei claro no post da Revista Trasgo #3 ser um tema que gosto DEMAIS, que nos leva ao dia-a-dia de Sarah, ou melhor: apenas a parte do dia em que ela está dormindo. Com uma trama inspirada em um filme que eu nunca vi, Jessica desenvolve um lado emocional de maneira espetacular, com um enredo simples e direto, uma linguagem que prende o leitor e uma habilidade maravilhosa de surpreender. Nota 10, parabéns para a autora.






sábado, 4 de outubro de 2014

Minha vida (de leitor) comparada



Um texto rápido só para cortar a enxurrada de resenhas postadas consecutivamente, e o assunto é a interação leitor-resenhista-autor. Recentemente entrei num grupo de resenhistas, com intuito de fomentar a produção nacional resenhando e divulgando títulos independentes, e até agora tudo tem dado certo, mais até que o imaginado, e as intenções são de melhorar ainda mais. Neste grupo, passei a ter contato não só com a resenha, como se dá lendo um blog ou caderno de jornal, mas também com o resenhista, e olhando o processo de análise e redação de cada um - são vários, é bom lembrar - pude fazer uma análise do meu próprio estilo de resenhar.

A primeira questão a se apontar é logo a mais polêmica: notas são necessárias? Para alguns, sim, para mim, não. A resenha serve para avaliar o livro em vários aspectos e concluir se vale indicar ou não a leitura. E tudo isso se expressa no próprio texto da resenha. Dar uma nota com base no que se diz ser “um fechamento” da resenha, para mim, é um despropósito, uma vez que o fechamento serve para considerar tudo que foi dito, e um número não é capaz de fazer isto. Mesmo considerando notas isoladas para cada critério de avaliação, o numeral não faria jus ao livro. Como exemplo, vamos imaginar que nota seria dada apenas no critério ‘Personagens’ nos seguintes casos: O livro chega no clímax com uma mãe doando um órgão para o filho necessitado. O livro remete ao amor da mãe em diversas passagens no livro, sejam longas ou curtas, densas ou triviais, sempre enaltecendo o amor que sente pelo filho, sem haver no enredo uma cena emblemática que evidencie esse amor maternal tão pujante.

Muitos resenhistas que vejo, não necessariamente os que fazem parte do grupo citado anteriormente, considerariam uma dessas expressões do autor como tendo qualidade e a outra não, no que tange a desenvolvimento da personagem Mãe. O ponto de vista do resenhista não é o importante, ele pode exaltar o segundo caso ou o primeiro, o leitor da resenha vai analisar a opinião e decidir se concorda com o critério desenvolvimento de personagem. Mas quando existe uma nota para o critério, a coisa muda. Se o resenhista a aprecia livros que se encaixem no caso 1, terá que dar uma nota baixa caso o livro lido apresente o caso 2, e vice-versa. E o parâmetro do leitor passa a ser a nota, sem saber realmente se aquele numeral representa a qualidade do livro individualmente ou num contexto comparado. Claro, há a justificativa de que a nota é só um complemento, mas como pode ser um complemento à resenha, algo que restringe o seu entendimento?

A segunda e última coisa que quero deixar registrada aqui no post é, sim, bastante associada ao grupo que faço parte. É a relação autor-resenhista. Ao meu ver, a resenha é a visão de quem escreve, e num contexto ideal, deveria refletir fidedignamente a impressão do leitor-resenhista. Quando se lê um autor estrangeiro ou falecido, há uma razão para não incluí-lo na equação da resenha, mas no meu caso, que estou fazendo resenha de um livro nacional, e ainda por cima independente, o contato com o autor é algo não só possível, mas recomendado! Por não ter prazos a cumprir até que a edição seja impressa, eu como resenhista me sinto à vontade para redigir calmamente, e buscando o autor para uma conversa livre sobre a obra. E não é isso que vejo em 99% dos leitores, blogueiros, jornalistas e vlogueiros literários; há uma aura sagrada que limita a percepção do resenhista sobre a obra exclusivamente nas palavras do livro. É um pecado capital evitar o autor para emitir uma opinião “livre de influências”, como se o autor, num bate-papo sobre seu livro, só possa ser desonesto ao ponto de passar informações de maneira a manipular o andamento da resenha? Não, assim como o inverso também não é pecado algum. Em minhas análises, me sinto satisfeito em dizer que já consultei autores nacionais quando da elaboração de resenha para um de seus livros. E em livros internacionais, se houver a oportunidade, também farei. Acredito que este seja um traço de orgulho para mim, pois evito preâmbulos introspectivos, buscando em mim respostas para minhas próprias perguntas, e ainda incremento um pouco de honestidade da resenha, já que o leitor pode ter uma informação do livro dada pelo autor, e que talvez eu não fosse capaz de captar na leitura.

Por hoje é só, e que venham para minha lista de leitura mais livros escritos por autores amigáveis.

Casos de informações que consegui através das autoras Vanessa Nilo e Lívia Stocco, em livros já resenhados aqui no blog: