sábado, 13 de fevereiro de 2016

Abandonei: Garota exemplar, de Gillian Flynn





O primeiro abandono de 2016 é do premiado livro que virou filme hollywodiano e encheu as cadeiras dos cinemas. Não tenho muito a dizer; é um livro bom, mas que não gerou interesse em mim, que já tinha visto o final da história através do filme. Parei em 43% do ebook, a narrativa é fluída, em primeira pessoa no passado, tanto para Nick quanto para Amy, embora no caso dela, haja algumas liberdades textuais pela narração ser passada por um diário (coisas como tópicos numerados aparecem, como se escritas numa página de caderninho mesmo). O mérito do livro está na mudança de voz, que é esplêndida! Cada personagem é caracterizado pela sua fala, seja na narração dos dois ou nos diálogos. Acabei pegando raiva dos personagens; Nick desde o início se revela um bundão sem graça e com pouca atitude, dando um papel mais ativo à Amy, mas com a progressão do livro fica claro que ambos são apenas crianças mimadas que querem ser o centro do relacionamento e não estão dispostos a dar o braço a torcer. Outra coisa que notei é uma particularidade na escrita que muito me deixa incomodado e que por puro preconceito (e por não saber explicar melhor) digo que é a voz novaiorquina da literatura. Preconceito porque não sei nada sobre a autora, mas tive a mesma sensação quando li (fui obrigado) Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert.
É, fico com o filme.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Impressões: O andarilho das sombras, de Eduardo Kasse

A segunda leitura do ano é cruel e sanguinolenta: O andarilho das sombras, do autor Eduardo Kasse. Vamos à capa e sinopse:





No romance O Andarilho das Sombras, primeiro volume da série Tempos de Sangue, Eduardo Kasse conta uma história instigante de como escolhas e uma promessa maliciosa criaram um grande mal.
Para salvar a vida de quem amava, Harold Stonecross sacrificou sua alma em um jogo de poder entre deuses decadentes e se tornou um demônio em busca de sangue.
Nesta fantasia sombria, entre lendas esquecidas, dogmas e mitos, Harold narra passagens de sua longa existência, repletas de conexões com tempos imemoriais, enquanto caminha pelas ruelas escuras e imundas da Europa da Idade das Trevas.
Sedutor e fatal, Harold fez do mundo o seu palco. Em sua atuação, a História escrita pelos homens confunde-se com as histórias de terror contadas pelos mais velhos. Nobres, sacerdotes, homens comuns, não importa: sempre haverá um rastro de sangue após as cortinas baixarem.


A sinopse é bem temática, e o pouco da trama que ela revela é condizente com a história do livro, apesar de ser só um raspão na longa jornada de Harold Stonecross. A verdade é que acompanhamos as vidas de dois Harolds, um é o vampiro de características clássicas, sustentadas pelos pilares do mito original, o outro é um humano comum, que cresce, teme, chora, ri e vive como todos os outros. As narrativas são contadas de maneira linear, entrelaçadas por sutis mudanças de espaço e tempo, e acaba sendo um bom exercício de percepção para o leitor; seguir o rastro de sangue de Harold se torna mais divertido quando temos os flashbacks mostrando o crescimento do esperançoso Harry. A seguir deixo um exemplo de retomada da linha de tempo do vampiro, após uma seção contando parte da vida do garoto Harry:

"Cavalguei por algumas milhas e longe no horizonte surgiu uma muralha de terra e de pedra. Cidades muradas costumavam ter boas casas para se alugar ou mesmo para comprar. Depois de dormir em uma carroça e em uma cabana, ter algo mais sólido seria ótimo."

Para ajudar o leitor, o parágrafo informa que antes da interrupção houve longa cavalgada e que Harold dormiu em uma carroça e depois em uma cabana, o que é suficiente para lembrar o leitor em que pé estava a história.

A narração é em primeira pessoa e as duas linhas de tempo são narradas no passado, o que gerou algumas dúvidas na minha leitura, como por exemplo a ampla percepção do narrador aos eventos que ocorrem ao redor de si, mesmo quando ele ainda não era um vampiro com sentidos super aguçados, mas nada que atrapalhe a coerência da história ou fluidez do texto. As cenas são muito longas, no geral, e OADS não é um livro para se ler picotado em viagens de ônibus ou metrô, exige dedicação e tempo livre, mesmo a quem decide ler um capítulo por vez. Isso se deve ao tamanho da história, mas também ao belíssimo trabalho descritivo, que não é massante, porém repito: é quase sempre longo. Um exemplo simples de como um parágrafo sucinto de Eduardo Kasse pode explicar muita coisa:

"Os quatro garotos correram sem olhar para trás, escorregando nas ruas cobertas pelo barro úmido devido ao dia chuvoso. Ao chegar à frente do torreão da face leste da muralha, Edgar e o garoto de nariz torto seguiram para um beco ao lado da taverna St. Mary. O gorducho, com passos curtos e pesados, entrou em uma velha casa nos fundos de uma pequena igreja de pedra e madeira, dedicada a São Eduíno."

Como o texto mostra, a linguagem de Eduardo é direta e sem firulas rebuscadas, uma boa escolha para dar agilidade a textos densos. Nem por isso ele exclui a linguagem figurada, e às vezes nos deparamos com belas passagens, como a seguir:

"Se cada lágrima chegar ao céu, esse já virou um mar."

Os personagens dão o tom na narrativa, se estamos com Harold, as sombras e a perdição noturna domina, se estamos ao lado de Harry, há mais aventura e indecisão; mas, em ambos os casos, predomina o exagero e as grandes expressões na delineação de personagens. A sensualidade transborda, o medo engole, a feiura enoja, a beleza enaltece. Tudo é puxado ao máximo nas características, e se o leitor não percebe isso de imediato, pode ficar frustrado mais para frente com a caracterização, e achar até estereotipado. É importante ver também que mesmo a fase de Harry é narrada pelo Harold que sucumbiu, então nem os momentos amenos do livro dispersam a atmosfera negativa que o vampiro nos impõe. A impressão que fica é estar lendo algo inspirada na segunda geração romântica da literatura brasileira.

Apesar das longas passagens, eu não via como criticar o ritmo até chegar na metade da leitura. Foi o ponto em que já estava cansado de acompanhar o vampiro insosso que nada teme e sofre além da própria lamentação pela imortalidade. Para minha sorte, o jovem Harry aparece mais na segunda metade do livro e não precisei dar um tempo na leitura, mas, ainda assim, me cansava ao ver novamente menções a coração imortal e seios intumescidos de jovens vítimas. Ficou muito repetitivo e modorrento acompanhar o vampiro Harold, e só bem no final do livro é que a linha do tempo dele retoma algum brilho (talvez tarde demais).

O que gostei:
-Linguagem que prende o leitor.
-Ótimas descrições.
-As linhas de tempo intercaladas foram bem estruturadas.
-Gostei da grande quantidade de personagens e do papel deles no enredo.
-A ambientação é o ponto forte do livro. Para quem gosta de vampiros tradicionais, é uma leitura recomendada.

O que não gostei:
-A vida de Harold enquanto vampiro se torna desinteressante.
-A visão negativa de Harold impregnou a narração da linha de tempo pré-renascimento, deixando os momentos divertidos do livro com uma pontinha de chatice.
-A unidimensionalidade  da maioria de personagens é quase que aplicada a classes. Todo o clero é corrupto, todo camponês é simplório, toda mulher é uma presa sensual para Harold. Entendo a função disso na trama, mas gerou previsibilidade.
-Deus Ex Machina ABSURDO  no final do livro para salvar o herói que não é herói coisa nenhuma.

Considerações finais:
Com um trabalho literário excepcionalmente bem feito, mas que se alongou demais e se repetiu algumas vezes, Eduardo Kasse inicia sua saga vampírica de forma densa. O andarilho das sombras é fruto de um trabalho lapidado e traça uma linha reta mostrando o que é e para onde vai; quem se identifica com a direção, poderá ler sem medo de se decepcionar.







sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Impressões: O espadachim de carvão, de Affonso Solano

Começando o ano com uma resenha de autor nacional! 2016 promete!
Vamos à capa, sinopse e minhas impressões, sem enrolação. 




KURGALA É UM MUNDO abandonado por Quatro Deuses. Adapak é filho de um deles. E agora ele está sendo caçado. Perseguido por um misterioso grupo de assassinos, o jovem de pele cor de carvão se vê obrigado a deixar a ilha sagrada onde cresceu e a desbravar um mundo hostil e repleto de criaturas exóticas. Munido de uma sabedoria ímpar, mas dotado de uma inocência rara, ele agora precisará colocar em prática todo o conhecimento que adquiriu em seu isolamento para descobrir quem são seus inimigos. Mesmo que isso possa comprometer alguns dos segredos mais antigos de Kurgala.


Essa foi uma das histórias que mais enrolei para ler em 2015, apesar de sempre levantar o olho para as várias menções feitas a ele na internet. Por isso, quando entrei em Kurgala já sabia mais ou menos o que esperar, em se tratando de como o autor trabalhou sua história. E eu, esperando o inesperado que todos alardeavam em suas resenhas, o encontrei. O autor toma o caminho inteligente de formar um mundo de fantasia que é só seu, e a jornada desbravadora do leitor se torna muito mais genuína, sem orcs, vampiros ou quaisquer figuras ficcionais que já povoam o imaginário do acostumado com livros de fantasia. Kurgala é, para início de conversa, um mundo novo. Isso agrada por um lado, mas cria dificuldades por outro.

O enredo é simples, a sinopse não foge muito do que a história trata do começo ao fim: um rapaz de 18 anos ingênuo (até demais, na maioria das vezes) fugindo de perseguidores e conhecendo personagens e lugares durante sua busca para saber o motivo de estar sendo caçado. Sem surpresas por aqui. Da narrativa, entretanto, há muito o que falar. É não linear - intercalando a fuga de Adapak com flashbacks que apresentam pessoas e interações entre personagens - e bastante fluída, facilitando o entendimento e empregando velocidade à leitura. Porém nem tudo é um mar de rosas, a narrativa peca em alguns momentos, por má construção de frase e estilo ou mesmo pela voz narrativa, que foi prejudicada pela estranheza absoluta de Kurgala. Eis alguns exemplos:


"Jarkenum dormia profundamente na cama ao lado, banhado pela iluminação parca que a pequena janela alta da cela"

"O sol da manhã dava boas-vindas aos três ocupantes do veículo, que rumavam para a grande ilha central"

"Um cinzeiro de barro jazia virado no chão, espalhando cinzas nunca varridas"

"O vento salgado do mar não era forte o suficiente para afastar completamente o cheiro de morte"

"Você é uma verdadeira peça mesmo, garoto. Eu não sei como são as coisas na “terra das pessoas de carvão” – ele debochou, fazendo aspas com os dedos"

"Temos que subir! – o espadachim gritou para o humano de cabelos longos, que estava vidrado no fenômeno. – Essa coisa vai nos engolir!!!"

"dobrando e redobrando a coluna violentamente, como um peixe sufocando fora d’água"

"EM SEUS BREVES 4 ciclos de vida, Adapak só havia conhecido uma caverna antes, quando Barutir Ob o levou para caçar capingus próximo às cachoeiras de Thal, oito meses atrás"

"pois o dinheiro da venda não duraria mais de dois anos, parece"

As primeiras quatro citações demonstram trechos que poderiam ser melhor trabalhados. A primeira é uma sentença simples, porém alongada por adjetivos e advérbios que não acrescentam relevo à escrita. A segunda tem um aposto mal colocado, que não está incorreto, mas provoca estranhamento na conjugação do verbo. As duas seguintes são frases mal feitas: cinzas derramadas no chão claramente nunca foram varridas, e o "cheiro de morte" seria afastado "por completo" por um vento "forte o suficiente"? Esquisito.
As cinco citações seguintes foram mais graves para mim, pois comprometem a própria coerência de Kurgala e do narrador. Como pode um mundo totalmente novo, com escrita diferente, linguagem diferente, colocar o gesto de aspas para simbolizar ironia? Ou mesmo usar a gíria "vidrado"? E, ainda mais, citar peixes tão despreocupadamente? Será que o narrador se subtraiu de Kurgala e veio para a Terra nos contar a história? Nas duas últimas citações, vemos o sistema de contagem de tempo, com ciclos substituindo anos, se confundir com a menção a meses e (olhe só!) anos. A empreitada tão ambiciosa de inovar tudo na construção de mundo poderia ter sido mais criteriosa na revisão; esses últimos erros são graves.

As descrições são muito boas, mas descompassadas com o ritmo da história. Em certos momentos, informações novas são adicionadas ao fim de uma cena, causando certa frustração com o leitor e sua imaginação. Acontece tanto com cenários quanto com personagens de fisiologia fictícia, e é mais prejudicial no último caso:

"Eles eram humanos de pele bege variando entre 30 e 40 ciclos de idade, vestindo armaduras justas de couro castanho-escuro e sem insígnias. Tinham rostos marcados pela vida bruta, com olhos acostumados à violência"

Aqui a descrição é satisfatória para descrever personagens genéricos, não há o que acrescentar, mas essa mesma vaguidão é aplicada para descrever raças imaginadas, e aí mesmo o personagem mais genérico precisa de detalhes. Na primeira cena do livro, Adapak luta contra inimigos com descrições vagas, e peças cruciais da luta são mostradas como um faz de conta pueril, descrevendo novos membros e armas no momento em que são usados/atingidos. Esses golpes, por mais precisos que sejam, Adapak, são decepcionantes para o leitor. Um simples infográfico desenhando as raças de Kurgala bastaria no começo do livro.

Os personagens são poucos e memoráveis (ainda que seus nomes não sejam), com trejeitos e maneiras particulares de falar, o que serve de força motriz para a aventura e prende o leitor no ótimo ritmo do livro.O destaque fica com Adapak, não há tempo nem dinâmica que possa desenvolver os demais.

O que gostei:
- Linguagem direta, fluída e com bom ritmo.
- Estrutura não linear do enredo.
- Personagens.
- Ambientação e criação do mundo.

O que não gostei:
- O itálico tem várias funções na escrita do livro, e causam confusão pela padronização, que podia ser esclarecida com o uso de aspas ou hífen em alguns de seus usos.
- A confusão do narrador que não se manteve estritamente em Kurgala, prejudicando a suspensão de descrença.
- Nomes bizarros de personagens, raças, lugares e tudo mais.
- A ingenuidade de Adapak é irritante, às vezes.

Considerações finais:
Mesmo com as ressalvas, O espadachim de carvão conseguiu me prender do começo ao fim, sem entraves e com uma narrativa despretensiosa que me deixou interessado, junto a Adapak, pelos mistérios de Kurgala, tanto os urbanos e corriqueiros quanto os secretos e ancestrais.





segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Lista de livros para o primeiro semestre de 2016


Atualmente estou lendo O andarilho das sombras, Stardust: o mistério da estrela e O espadachim de carvão. Em 2016, terão como possibilidades de leitura (100%) os seguintes livros não lidos de 2015:






E a lista criada especificamente para 2016 é:



Sonho Febril - George R. R. Martin
Republica de ladroes - Scott Lynch
O Temor Do Sábio  - Patrick Rothfuss
O Homem Pintado - Peter V. Brett
O gigante enterrado - Kazuo Ishiguro
O Corvo - Edgar Allan Poe
O Aprendiz De Assassino - Robin Hobb
Jonathan Strange e Mr. Norrell - Susanna Clarke
Belas Maldicoes - Neil Gaiman
Admiravel Mundo Novo - Aldous Huxley



sábado, 26 de dezembro de 2015

Impressões: Contos para ler na fila de espera


Para concluir meu desafio no goodreads, selecionei contos bem curtinhos para comentar, me aproveitando da assinatura do serviço Kindle Unlimited. Com exceção do conto do Eduardo Kasse, todos são minicontos que podem ser lidos numa fila de espera de supermercado.



Quatro Heróis e um Bardo contra a Realidade Medieval, de Rodrigo Assis Mesquita, é conto de comédia muito bem humorado e cheio de tiradas anacrônicas que zomba da nossa sociedade com classe, sem perder o charme medieval imposto pelo cenário. Quem gosta de humor nonsense, estilo adult swim, vai gostar (a história poderia ser facilmente adaptada para um esquete deste show).




O último sol poente, de Eduardo Kasse, segue a linha de apresentação dos imortais vampíricos, neste caso se tratando de um japonês. O primeiro terço do conto foi bastante confuso, por ser muito puxado para ação e apresentar personagens com nomes japoneses de difícil memorização. Transposta esta primeira parte, a narrativa segue mais calma e é possível assimilar melhor quem é quem e seus papéis na trama, de forma que a narrativa se torna belíssima ao final, e a escrita mantém o padrão de qualidade que eu esperava; especialmente nas descrições. A forma do autor trabalhar o sensorial é de uma técnica apuradíssima, sinal de grande talento e trabalho duro.



Parceiros no crime, conto de Ana Lúcia Merege, me deixou à vontade com sua escrita, da qual sou fã e já me sinto familiarizado. A trama expõe um conhecimento profundo em mitologia grega - cujas principais histórias conheço superficialmente - e uma pesquisa sobre lugares e costumes gregos para contar uma história de amor à primeira vista com bastante aventura e mistério. Como sempre, os nomes estrangeiros me atrapalharam no começo (para se ter uma ideia do modo como são tratadas as referências gregas, até Hércules se manteve Héracles, numa citação), mas logo fui me acostumando. Recomendo a todos que curtem a mitologia grega.



Estrela cadente, de Lívia Stocco, é um conto rápido, simples, engraçado e muito bem montado. As características psicológicas são o ponto alto desta narrativa em primeira pessoa, e cativa sem muito esforço. A linguagem é coloquial e o enfoque descontraído garante fluidez e concisão às ideias. Muito bom!



Os anjos não conhecem o céu, conto de Bruno Eleres, me causou uma indiferença extrema. Passado um dia da leitura, eu quis escrever este comentário sobre e não consegui. Simplesmente não lembrava de nada do conto. A escrita não possui defeitos evidentes, é a falta de voz e o enredo "pasteurizado" que tornam a leitura completamente desinteressante. Não costumo dar notas, mas esse é 3/5. Não fede nem cheira.





A ladra que roubava ladrões, de Laís Manfrini, apresenta um conceito interessante, mas a escrita contém alguns maneirismos prejudiciais à leitura; especialmente nas descrições, que se esmiúçam de maneira artificial. O enredo abrange muita coisa para as poucas páginas, e a impressão que fica é a de pressa desmedida, e os personagens são vagos e sem muita importância, apesar de conter um charme peculiar nas suas estranhezas.






O ouro da montanha, de Camila M. Guerra, possui uma escrita rica, opulenta, sufocante. O rebuscamento das frases é agradável pelo estilo, mas é feito sem medida; os adjetivos transbordam em alguns parágrafos, e o que deveria formar a imagem, acaba dificultando o processo de leitura. O enredo é belíssimo, as cenas bem montadas e texto, como um todo, é carregado de poesia. Recomendo!







quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Impressões: Limbo, de Thiago d'Evecque


Para encerrar as resenhas de 2015 (será?), mais uma história de autor nacional.



O Limbo é para onde todas as almas vão após a morte. Além de humanos, deuses esquecidos e espíritos lendários também vagam pelo plano. Muitas almas sabem exatamente onde estão e por que; a maioria, entretanto, ainda tem a impressão de estar viva. A morte é um hábito difícil de se acostumar. 
Um dos espíritos residentes no Limbo acorda sem nenhuma lembrança de sua identidade. Ele descobre que a Terra está prestes a ser destruída pelos próprios humanos e fica encarregado de enviar doze almas heroicas de volta. Elas reencarnarão no plano dos homens e tentarão reverter o quadro apocalíptico. 
Contudo, poucas almas encaram o retorno com bons olhos. O espírito deve, então, forçá-las. Armado, de preferência. Assim, resolve visitar um velho amigo: Azazel, anjo ferreiro e primeiro escolhido da lista. 
O espírito descobre mais sobre quem realmente é, ouve uma versão completamente diferente sobre a rebelião dos anjos e é presenteado com uma surpresa de péssimo gosto. 
LIMBO mistura elementos e referências de videogames, RPGs, HQs, animes, mangás, filmes, séries e livros. De Lovecraft a Final Fantasy, é uma homenagem às influências que marcaram o autor. 


Comecei a leitura bastante empolgado por conta da quantidade de elogios que Limbo possui nas páginas de avaliação, e logo no começo pude notar que não eram infundados. Em sua primeira publicação, Thiago d'Evecque assombra com sua qualidade de escrita, deixando aos entusiastas da literatura nacional de fantasia, um nome para se guardar. A escrita é bela e poética, abusando de figuras de linguagem e garantindo uma fluidez uniforme no texto. As descrições são diretamente afetadas por isso, e o livro apresenta boas representações de visual de personagens, e em certa medida de cenário também, apesar do limbo, enquanto atmosfera macro da história, acabe prevalecendo e poluindo os cenários com seu vazio escuro.

A narrativa foi a parte problemática da leitura. A sinopse é bastante sincera sobre a história do livro; percebemos pelo menos uma dúzia de referências das mais variadas, num universo de sincretismo que, (muito) ironicamente, só exclui o deus judaico-cristão da existência. A jornada é uma espécie de "12 trabalhos de Hércules", mas que se repetem exaustivamente e sucessivamente, deixando o ritmo de leitura bem prejudicado. Como se Hércules, ao invés de 12 tarefas, precisasse cumprir apenas 2, e repeti-las 6 vezes em alternância. Se dá assim: a alma imagina uma figura heroica, se materializa na moradia da mesma (que, novamente, se permeia com as brumas e aspecto do limbo), descreve tal herói e começa uma conversa com ele, explicando a situação do mundo e a necessidade do seu retorno. E, de acordo com o caso, o herói aceita sua missão de bom grado ou pela força. Pronto. São essas as 2 possibilidades que se vê durante todo o livro.



"Corte logo a cabeça deste miserável!
Eu podia. Podia mesmo. Simplesmente girar Cacá de lado e cortar o pescoço de Tabadiku em um corte limpo e preciso. Mas gosto de dar uma chance para entenderem o que está havendo com eles e com o mundo".

O trecho acima, da segunda metade do livro, demonstra que o autor conhece bem a estrutura repetitiva do enredo, e mesmo assim a usou, deliberadamente. O leitor precisa enfrentar tal obstáculo e virar as páginas para encontrar o inimigo que, numa estranha alusão ao modelo "DBZ e demais animes", é sempre mais desafiador que o anterior, ao menos os que se mostram contra o pedido de voltar ao mundo dos humanos (e não, eles não são mais desafiadores que o anterior, é a alma que está sempre mais fraca por causa dos ferimentos recebidos, o que também exige uma boa dose de suspensão de descrença, afinal ser atravessado por uma espada, por exemplo, não é um referencial válido numa escala de cansaço/sofrimento). As disputas físicas se aproveitam do talento de escrita, mas ainda caem no enfado estrutural em que se situam. Limbo é um livro cheio de qualidades, mas também de defeitos evidentes.

O que gostei:
- A escrita é muito bem trabalhada. Algo único e que precisa ser elogiado sempre.
- O número de referências é mais que suficiente para evocar simpatia de qualquer tipo de leitor.
- Há notas de todas as referências utilizadas, no final do livro.

O que não gostei:
- A narrativa é muito repetitiva.
- Personagens, apesar de diferentes, em essência significam a mesma coisa.
- A escolha de alguns personagens contradiz a escolha de outros. Se a ideia original é dar um novo rumo para a humanidade, a alma acabou dando um leque de opções bem caótico para a humanidade seguir.
- O pior defeito de todos, na minha opinião, é a utilização exagerada de frases de efeito e lições de moral, as duas coisas que mais abomino na escrita, e que me pareceram um desperdício de talento. Destaco, no entanto, que TODAS as marcações populares do Kindle são justamente algumas dessas frases de efeito.

Considerações finais:
Thiago d'Evecque presenteia o leitor com uma escrita incrível permeada de bom humor. Limbo, para mim, é um bom presságio e acrescentou mais um nome à minha lista de autores notáveis. Espero que daqui para frente a boa escrita largue o fanservice e ofereça algo original; FanFic é coisa de autor amador, e d'Evecque se provou capaz de ir além disso.






terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Impressões: Contos de Dezembro/2015


Hoje venho trazer mais impressões sobre contos fantásticos escritos por autores brasileiros. Todos foram adquiridos na loja Kindle da Amazon.



O conto Um herói para Daniel me decepcionou. Já conhecia o trabalho da autora pelas histórias fantasiosas de Bhardo, publicadas de maneira independente na Amazon, e ela se tornou um nome constante nas minhas listas de recomendações de fantasia nacional, mas neste conto ela não acertou a mão. A escrita fica confusa muitas vezes por conta de frases mal elaboradas, tem mais erros de digitação do que se pode notar e deixar passar, e a própria estrutura do enredo é mal trabalhada. A história é bonita - fala sobre bullying e amadurecimento - e quase se salva por ser destinada ao público infantil, mas não convence. Elementos narrativos rígidos e apresentados sem qualquer introdução se unem a personagens rasos (Daniel e o bully se excluem) para formar uma história sem apelo e bastante amadora.



Lobo de rua é a primeira publicação de Jana P. Bianchi e sua estréia não poderia ser melhor. A novela surpreende pela habilidade na escrita, sendo impactante no roteiro e rica nas descrições, o que é percebido na ambientação da cidade de São Paulo - mas não só nela, sentimentos são facilmente evocados nas descrições pessoais e das situações narradas. A fantasia urbana não tem grande complexidade de enredo, mas essa falta abre espaço para o belíssimo trabalho de desenvolvimento de personagem; esse aspecto me levou à impressão de estar lendo um drama, muito mais que uma fantasia. A história de Tito e Raul funciona como um prólogo muito bem montado, mas também se encaixaria tranquilamente como um apêndice para o que, eu imagino, virá da Galeria Creta, pois Lobo de rua possui começo, meio e fim. Com ressalva a três ou quatro exageros que acabaram tirando efeito em suas frases, a qualidade da escrita é impecável, garantindo mais uma autora para minha lista de favoritos. Fervorosamente recomendado!




Por último, Ao som de uma canção de amor você sangrava. Nesse conto de Eduardo Kasse acompanhamos Diodoros, um vampiro grego hedonista e narcisista num diálogo de um lado só. Ele conversa com o personagem/leitor (por isso o "você" no título, muito sagaz!) e conta sua transformação em vampiro. A linguagem é de fácil assimilação, mas é evidente que não se construiu sem esforço, pelo requinte de vocabulário e detalhes apresentados; o trabalho de pesquisa do autor é quase palpável. As cenas, bem conduzidas, formam um enredo enxuto, agradável e com ares poéticos de grande impacto. Um conto incrível!